terça-feira, 12 de junho de 2018

Sour Grapes, 2016





Este documentário conta a estória de Rudy Kurniawan, provavelmente o maior falsificador de vinhos da história e um dos grandes responsáveis pelo aumento de preço e mitificação de alguns vinhos.

Profundo conhecedor de vinhos e pessoa envolvente, começou a colocar seus vinhos em leilões, sob o manto de possuidor de uma extensa adega e com rótulos raros, obtendo milhares dólares em cada venda.

A farsa foi descoberta por um produtor de vinhos da Borgonha, que descobriu que algumas safras comercializadas não correspondiam com os rótulos produzidos.

Excelente película para demonstrar como os vinhos são mitificados nas mãos de poucos, a ganância no mundo dos vinhos e, principalmente, como o mercado de leilões de vinhos pode entrar em colapso.

Não vou dar spoiler, mas chega até a ser engraçado como Kurniawan manipulou o mercado de vinhos.

Da Base.

terça-feira, 3 de abril de 2018

Utilidade

No banco de trás

borram as luzes dos carros

no molhado da chuva

Solitário


Penso nas pessoas que me cercam

Da mesma forma que o taxista me leva

o valor do taxímetro

é o preço do amigo


No valor da minha confiança

vale a utilidade, 

O preço que pago pela companhia

para manter a amizade


Poucas sinceras

Desinteressadas

Que somente com o aumento do preço

A tornam gratuitas e fiéis


Findo o meu poder de pagamento

Quando veem que chego ao meu destino

O taxímetro marca o preço final

E desembarcam da minha vida


Poema escrito em Belém, Dezembro de 2016.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

Beleza Oculta, 2017




É certo que a crítica classificou o filme como melodrama tipicamente hollywoodiano, fazendo duras críticas ao filme, mas o fato é que qualquer filme que reúna Edward Norton, Kate Winslet, Will Smith, Helen Mirren e Keira Knightley merece ser visto.

No filme, Howard (Will Smith) é um pai que perdeu a filha de seis anos e se fechou completamente para o mundo, enviando cartas para a morte (Helen Mirren), o tempo e o amor (Keira Knightley). Três amigos e sócios (Edward Norton e Kate Winslet) se reúnem para fazer com que Howard venda a empresa, que vai mal desde a morte da filha e do afastamento de Howard.

São três finais com uma beleza sutil e o principal surpreendente.

De arrancar lágrimas de qualquer apreciador de O Predador.

Da base.

sábado, 13 de janeiro de 2018

Uísque e Jingle Bells

Todo ano, um grande amigo meu faz um natal especial para as crianças conhecidas dele. Como ele mesmo me disse quando ligou para convidar a família Cavalcanti, a festa é para as crianças, para que mantenha viva a crença no Papai Noel.

Então, a estória era a seguinte: a criança escreve uma cartinha para o Papai Noel pedindo o seu presente. Os pais compram e entregam para o meu amigo anfitrião. No auge da festa, o Papai Noel chega na festa de Natal, lê a cartinha da criança e entrega o presente, em um realismo natalino que poderia fazer até um adulto acreditar.

Chegamos na festa, uma bela casa, com muitas crianças e os seus pais, que se sentaram em uma das pontas da mesa de jantar, devidamente munidos de uísque e tira-gosto. Afinal, não eram apenas as crianças que poderiam se divertir nas vésperas do dia 25.

Primeiro, uma apresentação de mágico que reuniu todas as crianças e alguns adultos, inclusive eu, que adoro ilusionismo.

Logo em seguida o ponto alto da festa, a entrada do Papai Noel! Jogo de luz, som alto com música de suspense, centenas de balões jogados do alto, muito gelo seco e então o Papai Noel entra por uma porta lateral, cuidadosamente decorada para parecer uma lareira, em uma superprodução de fazer inveja a filme de Hollywood!

As crianças embasbacadas e não acreditando que estão vendo o Papai Noel na frente delas! E era o Papai Noel mesmo, com a perfeita indumentária vermelha, barba branca natural, o gorro escondendo o cabelo branco da cor de algodão, o grande saco vermelho com os presentes de todas as crianças do mundo e o Ho ho ho tradicional.

Pedro, então, cético como ele é, seguidor de São Tomé, olhava o Papai Noel desta vez acreditando que ele realmente existia, pois estava na sua frente.

Santa Claus sentou-se em uma poltrona pomposa ao lado da gigante árvore de natal da casa e passou à liturgia que me explicou o anfitrião, com a leitura da cartinha de todas as crianças e a entrega dos presentes, inclusive com o Pedro, que mais que estar feliz com a sua iguana e a tartaruga de brinquedo, que havia escolhido em sua cartinha com duro esforço da Preta, não parava de olhar o Papai Noel.

Mas o ponto alto desta crônica é o Papai Noel. Melhor, o que ocorreu depois da distribuição de brinquedos e do Jantar. Justo que o bom velhinho, após a viagem extenuante do Polo Norte, estava com fome e se serviu para repor as energias.

Também tirou o seu pesado casaco vermelho, afinal, a temperatura de Belém é bem mais alta que a do Polo Norte. Na retirada do casaco, estava de suspensórios vermelhos e uma camiseta branca, com detalhes natalinos na frente, com a inscrição Merry Christmas. Sentou-se na ponta da mesa onde estavam os pais e se serviu de uma dose generosa de uísque.

Começamos a conversar, eu e o bom velhinho, cada qual com seu aperitivo escocês na mão e, de quando em vez, servíamos de mais uma dose e balançávamos o copo para apressar a diluição do gelo. Descobri que Santa Claus possui um irmão gêmeo, que também faz bico de Papai Noel durante o período natalino, principalmente no Shopping Boulevard, e que os dois fazem uma dobradinha, fácil quando são gêmeos idênticos.

Aliás, essa de um se passar por outro, vem desde a infância, no Bairro de Nazaré onde foram criados e moram até hoje. Infância que o seu irmão recebeu o apelido de "cara de meia" e o meu Papai Noel, por óbvio, recebeu o apelido de "irmão do cara de meia". Ainda que não precise explicar, o apelido vem do fato de que uma meia é sempre igual à outra.

E foi passando a noite, as crianças indo embora, e o Santa Claus contando estórias de sua infância e juventude, sorvendo cada vez mais doses de uísque e tira-gostos, desta vez vindo dos rechauds onde fora servido o jantar. Pedro, desconfiado com o Papai Noel sentado na mesma mesa que ele e o seu pai, olhava de soslaio, ainda mais quando saía algum palavrão contido.

Estava ficando tarde, o sono apertando e tinha que levar o Pedro pra casa, mas não sem antes ver o Papai Noel batendo de frente com um vidro, quando tentava atravessar uma porta envidraçada para fumar do lado de fora da casa.

Da base.

domingo, 18 de dezembro de 2016

Falando de Deus e de Saramago

Há um ano tive a revelação mais impactante da minha vida. Meu filho se tornava (já era, mas não tinha um diagnóstico) um autista.

Como qualquer pai de filho autista, meu mundo caiu, acabou. A única força que eu tinha era de ajudar, melhor, propiciar o melhor tratamento que eu podia dar. Não tinha e não tenho tempo para me dar ao luxo de "ficar de luto".

Mas o que eu coincidentemente lia, mesmo não acreditando em coincidências, era o Evangelho Segundo Jesus Cristo, de Saramago.

E o que era pior, estava lendo o diálogo entre Deus, Jesus Cristo e o Diabo, em uma canoa. Na conversa dos três, sem me alongar muito, Deus colocava em cheque o livre arbítrio. Dizia Ele que tudo que acontecia era porque Ele queria. O nascimento, a morte, a vida e o próprio destino.

Não sei se foi o momento que estava passando, mas foi a passagem mais genial que li na minha vida. Genial!

Passei a me questionar sobre o Pedro. Que, inclusive, o nome foi dado em face do Seu principal apóstolo.

Sempre acreditei em Deus, não da forma como ele é concebido, mas mais de uma energia que rege o universo, que pode ser até mesmo uma pessoa que o faça, se é que não fui contraditório (mas isso é matéria para um outro post).

Neste meu questionamento e do determinismo da reflexão que o livro me indicava, briguei com Deus (ou mesmo com a energia) em uma das minhas pequenas conversas introspectivas diárias que tinha com Ele. Sempre fui um bom menino, nunca fiz nada de errado e sempre fui o sustentáculo da minha família. Por quê Deus fez isso comigo? 

Enfim, ainda estou brigado com esse Deus que não é meu, mas mesmo procurando outros deuses, ainda não encontrei um para substituir e permaneço com o mesmo.

Antes que pareça algum tipo de rejeição, meu filho é lindo, a melhor coisa que Deus me deu e o amo. Espero que ele leia estas singelas reflexões um dia.

Contraditório ou não, a partir de hoje, volto a rezar.

Da base.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A Encantadora de Crianças

A primeira vez que a vi foi na antessala de um consultório. Bela, altiva e, principalmente, com a confiança típica da juventude.

Na hora a dúvida de confiar a criança da casa, nosso maior bem, àquela jovem, que logo nos primeiros dias se dissipou, ante a clara segurança no que estava fazendo e a técnica utilizada, que demonstrava o conhecimento dos melhores profissionais.

Era impressionante como ela conseguia fazer com que o menino, em poucas horas, fizesse tudo que ela queria. Parecia encantado, com uma diferença, mesmo quando ela nos deixava, permanecia sob o encanto, levando o conhecimento aprendido com o feitiço para toda a vida.

Estávamos vivendo a fábula de Hamelin. Aliás, a melhor parte, pois além de conseguir que o ratinho a seguisse ao som de sua decidida flauta, conseguiu, inclusive, em episódio emocionante, que o próprio ratinho tocasse o instrumento.

Nestas tardes diárias, ainda apareceram o riso fácil, a alegria, e mesmo algumas doses de autoritarismo, que acabou encantando todas as outras crianças da casa, ainda que todas estas outras estivessem na casa dos trinta ou mais.

Foi aí que se deu a outra fábula, a de Lewis Carrol, e lhe cortaram a cabeça.

Infelizmente foi embora, por uma falta de opção ou mesmo de coragem nossa, não sem antes nos deixar um vazio no peito e nas nossas tardes, que já estão mais tristes.

Fique bem e que Deus lhe reserve um grande caminho. Quero lhe ver sempre como da primeira vez, bela, altiva e confiante, com os nossos agradecimentos eternos.

Da base.

sábado, 3 de setembro de 2016

A Moça do Mercado da Ribeira




Depois de um dia todo no Zoológico de Lisboa, extenuante, correndo com o filho para ver golfinhos, leões, zebras e antílopes, o pai decidiu não voltar para o hotel e partir direto para o jantar. Afinal, se o moleque voltasse, não iria querer mais sair do quarto. Muita discussão depois, decidiu, o casal, conhecer o Mercado da Ribeira.

Táxi, perguntaram se estava aberto - domingo, em Lisboa, muitos lugares fechados -, e chegaram ao mercado belamente restaurado, hoje repleto de bares e restaurante, incontáveis os tipos de comidas e bebidas, e muito boa qualidade. Acomodou a esposa e o filho em uma mesa coletiva concorrida, saiu para buscar urgente o jantar do filho, sob as regras da mãe do tipo de comida! Jantar preparado e entregue, foi viabilizar as relaxantes taças de vinho.

Wine Bar no centro do salão. A atendente, uma loirinha, olhos azuis e a pele alva da península, um sorriso com a boca desproporcional das mulheres lindas, acolhedor e ao mesmo tempo sensual, como uma Julia Roberts juvenil.

O corpo serpenteava uma falsa magreza, que dava para prever, mesmo sem ter visto, as nádegas firmes e redondas, escondidas, cuidadosamente, em um shortinho preto formal, que para baixo saiam as pernas finas, proporcionais e cuidadosamente fabricadas em um torno divino e, para cima, uma blusa branca de seda, na qual os dois pequenos montinhos poderiam ter sido dados por uma Ninfa.

De longe possuía um ar doce e angelical, uma fadinha sem asas, como se fosse de porcelana, ar esse que logo se desfez quando se aproximou.

Continuava linda, mas se apresentava discretamente simpática, quando tascou logo um "hello" de atendente pensando que o marido era inglês ou americano, com uma simpatia objetiva. Aliás, a simpatia objetiva também foi o mote do profissionalismo, quando disse que queria um bom vinho da região que, olhando nos olhos do cliente, puxou uma taça de um armário baixo e disse, com a segurança de um sommelier italiano: - Esse é o meu preferido! Douro!

Servida a prova do líquido cor de sangue, rodou o vinho no copo sutilmente para respirar - ou, o mais provável, para demonstrar para a moça que não era tão ignorante na arte de baco - e realmente o vinho era delicioso!

Cumpre dizer que, ao tempo que estava provando, a moça atendia vários outros clientes com a mesma simpatia, permeando com perguntas sobre se gostava de mais frutado ou com mais estrutura, que demonstrava o conhecimento do que estava fazendo, mesmo com a sua pouca idade.

Disse que era esse e que queria duas taças. Retornando à mesa, o casal bebeu a taça de vinho, sem que o homem pudesse se desligar da imagem da ninfeta, que abreviou o término, logo voltando para comprar mais.

Com a coincidência previsível, lá estava a moça, outra vez com as mesmas perguntas objetivas sobre como os clientes queriam o vinho: - Mais estrutura? Qual região? Sempre com a tal simpatia objetiva que envolvia os homens e deixava alguns embasbacados tentando demonstrar os seus parcos conhecimentos enófilos.

Era isso que encantava e seduzia: a simpatia e o conhecimento dos vinhos. Com objetividade, sem firula, apenas o conhecimento dos vinhos e, claro, a beleza de uma escultura renascentista, ainda que discreta.

Por uma terceira vez o marido foi ao Wine Bar, obviamente para o vinho mas, pensando que não seria nada mal ver a loirinha outra vez.

Chegou ao local, a moça não estava mais. Estava atendendo em seu lugar um jovem de cabelos castanhos-aloirados, um pouco grandes, penteados para trás e seguros com gel, alto e atlético, com a similar camisa de seda que revelava um peitoral protuberante e lhe dava um ar de amante italiano de filmes de comédia romântica.

Sem mais o sorriso abobalhado que estava das duas últimas vezes, o marido disse seco: - um Porto e um cálice de vinho tinto, e retornou prontamente para a mesa com a esposa, sem deixar de pensar que é melhor, a partir de agora, não deixar a esposa comprar vinho no Wine Bar ...


Da Base.