segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

Sorriso


Voltando agora de Londres, a lembrança que não me sai da cabeça não é a dos Black cabs, do Big Ben ou mesmo da altivez dos londrinos, mas a da amabilidade destes, principalmente de um dia, no imenso metrô inglês, quando a Preta foi pedir informações e comprar o passe e o atendente, com um sorriso e solícito, nos ensinou como chegar a nossa estação e disse:
- eu adoro os brasileiros, eles sempre sorriem!
Antes de conhecer Londres, era difícil imaginar um inglês falando isso. Hoje, não.



Da base.


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domingo, 16 de dezembro de 2012

Testamento sem rima


Não,
não estou deprimido,
sequer doente,
apenas precavido

Desde já peço,
a quem couber meu corpo,
que saiba que eu não estou mais lá,
e por isso pode me cremar,

No meu dia,
como diz o samba,
nada de choro nem vela,
quero a alegria ebriada,
e as lembranças de minhas estórias

Após o dia fatídico,
não quero visitas no domingo,
preces de obrigação
quero lembranças

Aos meu amigos
deixo a alegria melancólica
os vinhos e a boemia
E, sobretudo, a lealdade sem dúvidas

A alguns poucos,
a noite da Guanabara,
o vagar pela Zona Sul
e o fim de noite no Leblon

Às minhas irmãs,
Espero ter deixado algo,
Não sei,
que elas saibam que eu as ame,
que eu não existiria sem elas e que fiz tudo que pude

À minha mãe,
quero ir depois dela,
pois sei que não fui o filho perfeito,
mas dor maior deixarei se me ver morrendo

Para a Preta,
Deixo Morrissey e os Smith's
a paixão pelos livros
a paixão pelo vinho e pela noite
E meu amor infinito e quase suicida

Ao meu filho
Deixo o clichê,
não menos verdadeiro,
de amor incondicional e eterno
O conhecimento que ainda pretendo dar
e a honestidade,
mesmo sabendo que
honestidade em boca própria é impropério

Os meus bens materiais,
enfim,
Não me interessam,
minha mulher dá fim...

Da base.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Mais uma estória de violência

Na última segunda-feira eu e a Preta quase fomos vítimas de um assalto ou, pior, de um sequestro relâmpago. 

Tomando um caminho que faço há três anos, no mesmo horário das 15 horas da tarde, vejo um carro desviar e revelar, na minha frente, um meliante com arma em punho, para que parássemos o carro, com o intuito de assaltar ou, sabe-se-lá, nos tomar de sequestro ou algo parecido. Eu, não sei se certo ou errado, baixei a Preta e avancei sobre o assaltante - Prefiro chamar assim, para não dizer sequestrador e, muito menos, assassino. Óbvio que não o atropelei e, graças a Deus ou qualquer um que esteja lá em cima, seja anjo da guarda, qualquer Santo, Alá ou similar, não teve maiores consequências que não um grande susto.

Daí me passou uma semana de reflexão. Contei a estória para alguns amigos e, inclusive para um amigo meu, que todos me questionaram a via que eu estava pegando e, alguns, que eu não deveria ter feito o que eu fiz, de não parar e avançar sobre o bandido. Ora, de início, não sou adepto da ciência da vitimologia. Não acredito, sob nenhuma hipótese, de que a vítima, no caso eu e a Preta, estamos propiciando qualquer influência para sermos assaltados pelo simples fato de termos pego a mesma via que pegamos no mesmo dia e na mesma hora há três anos. Segundo, não poderia ter agido diferente, pois se parasse, não sei o que aconteceria com a Preta e, quiçá, com o meu filho, que poderia ser objeto de alguma chantagem, mesmo estando em casa.

Cada vez mais, penso no meu repúdio desde à época de adolescente à mentalidade pequeno-burguesa de afastar a pobreza e a criminalidade de todos, como se fosse um câncer social e que as pessoas fingem que não vêem e se encastelam em seus condomínios fechado e quem tem recursos compra a segurança e não está na rua.

Vejo a impossibilidade de estar na cidade a pé, sem os carros de vidro fechado e películas negras como o breu. Vejo um mundo lá fora paralelo ao que vivemos, com violência e ritmo de vida que não chegam à classe média e, pior, quando se fala nesse mundo, fingimos não acreditar e que ele não existe.

Cada vez mais esse mundo paralelo cresce e as formas de proteção vão sendo tomadas por quem tem dinheiro, ao mesmo compasso que estes mesmos fingem não ver a violência. Carros blindados, condomínio fechado, segurança, nunca ir para a periferia ou tomar vias que passam por áreas de caráter duvidosos, poderia escrever mais uns quinze parágrafos sobre este assunto e continuaria sendo atual e instigante, demonstrando o total e completo afastamento da violência que nos circunda e, mesmo assim, fingimos ter uma postura britânica de indiferença acerca do tema.

Para abreviar esta conversa, eu, vejo, virei um pequeno-burguês, que ignoro a violência que está a minha volta e entranhada na minha vida, fingindo não acreditar que ela existe, dentro de um condomínio fechado, trafegando por ruas movimentadas e tomando, instintivamente, as precauções de estilo.

E esta mentalidade pequeno-burguesa se acentuou após o incidente da segunda-feira passada.

Da base.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Nove Rainhas, 2001





Há muito queria ver este filme, mas por diversos motivos somente hoje consegui vê-lo.

Trata-se de um suspense em que dois vigaristas tentam vender uma coleção falsa de selos raros.

O imprevisto e a dúvida são a tônica do filme, principalmente quanto à confiança entre os dois vigaristas

Aviso, é um filme argentino, digo, não hollywoodiano. Pelo menos por enquanto, pois o remake está ou já foi providenciado.

O que posso falar? Filme incrível, com um roteiro espetacular e, dispensando comentários, Ricardo Darín, que é um dos melhores atores, talvez o melhor, da década passada.

Da base.


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Location:Vila Amanajás,Belém,Brasil

domingo, 23 de setembro de 2012

Ariano Suassuna

No vôo Recife-Belém, duas cadeiras depois da que estou sentado com a Preta e o Pedro no nosso colo, está o grande escritor Ariano Suassuna, indo à Capital do Pará provavelmente para participar da Feira Pan-Amazônica do Livro.

Chegou com humildade e com uma serenidade de dar inveja a Buda, mas logo todos abriram para ele sentar onde quisesse, mesmo em um vôo lotado.

Quando começou a taxiar, dentro de seu terno de linho branco, com corte moderno e os amassados típicos do linho, fez um extenso sinal da Cruz, unindo as mãos e fazendo uma prece silenciosa, de cabeça baixa, com reverência a Deus como a de um apóstolo a Jesus.

Após, aparentando um pequeno nervosismo, certamente por seu conhecido medo de avião, passava os dedos polegar e indicador formando o vinco da calça de linho, sobre o seu fêmur das pernas magrinhas sobrepostas uma sobre a outra.

Puxa um livro de sua pasta de couro marrom, cortesia da UNIMED, quem diria, um livro de bolso, A Extravagância do Morto, Aghata Christie, inusitado para o Autor de grandes obras como A Pedra do Reino.

Alguém fala com ele, elogiando e se dizendo um grande admirador, ele responde com simpatia e pergunta o nome, naquela voz rouca e um pouco trêmula, mas ainda bem firme para alguém de sua idade.

Segue a viagem tranquilo e eu embasbacado, hipnotizado, não consigo tirar os olhos deste vovozinho de 86 anos, que apareceu na minha vida quando eu tinha 15 de idade, em que conheci O Auto da Compadecida.

Na saída, passou ao meu lado, e deu um "até logo" simpático para mim e saiu com desenvoltura.

Criei coragem e perdi a primeira oportunidade de interceptação, mas, com a insistência da Preta, deixei a timidez de lado e aproveitei que outras pessoas estavam de prontidão para uma foto, quando a Preta pediu para tirar uma também, o que foi aceito com um sonoro "até duas".

A minha foto com ele saiu perfeita, a da Preta, que eu tirei, por óbvio saiu tremida e desfocada.



Como sussurrou a Preta ao meu lado durante a viagem, um simples vôo com Ariano Suassuna é mais emocionante que as férias que tivemos de uma semana na Bahia.

No vôo de Recife para Belém.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Travessuras da Menina Má - Vargas Llosa

Um dos motivos que me levaram a passar este tempo sem postagens, deve-se certamente a um livro, indicado por uma amiga, do Nobel de literatura Mario Vargas Llosa, o Travessuras da Menina Má.

A novela trata de um peruano - terra natal do escritor -, apaixonado pela menina má e como evoluiu toda a sua vida e o seu amor por essa mulher. A narrativa é sensual sem ser vulgar, apaixonada, política e por diversas vezes trágica, permeando várias décadas, desde a de 50 do século passado até os dias atuais, com narrativas passadas no velho mundo, neste continente e mesmo na Ásia, sempre se posicionando nos costumes sociais e políticos das Cidades e dos Países e em sua época própria.

Se é para escolher apenas uma palavra para definir o romance, esta palavra seria hipnotizante.

Segue trecho que para mim é síntese do livro, às págs. 101/102 da edição do ano de 2006 da Editora Objetiva:

" - Espero que não tenha esquecido do que eu gosto, bom menino - sussurrou no meu ouvido, afinal.

E, sem esperar a minha resposta, deitou-se totalmente de costas, abrindo as pernas para dar lugar à minha cabeça, enquanto cobria os olhos com o braço direito. Senti que começava a se afastar cada vez mais e melhor de mim, do Russell Hotel, de Londres, e a concentrar-se totalmente, com uma intensidade que eu nunca tinha visto em mulher alguma, nesse prazer solitário, pessoal, egoísta, que meus lábios haviam aprendido a lhe dar. Lambendo, sorvendo, beijando, mordiscando seu sexo pequenino, senti-a ficar úmida e começar a vibrar. Demorou muito para gozar. Mas era delicioso e arrebatador senti-la ronronando, balançando, mergulhada na vertigem do desejo, até que, por fim, um longo gemido estremeceu seu corpinho da cabeça aos pés. "Vamos, agora", sussurrou, sufocada. Entrei nela com facilidade e a apertei com tanta força que saiu da inércia em que o orgasmo a deixara. Reclamou, contorcendo-se, tentando se livrar do meu corpo e gemendo: "você está me esmagando."

Com a boca colada na sua, pedi:

- Por uma vez na vida, diga que me ama, menina má. Mesmo que não seja verdade, diga que me ama. Quero saber como soa, pelo menos uma vez."

Da base, Belém, Pará.

Cotidiano Jurídico - O Pastor

Primeiramente, aos leitores, peço desculpas pelos mais de dois meses que passei sem escrever neste blog - cujos motivos são irrelevantes, mas consistentes - e prometo que nunca mais se passará tanto tempo sem que algumas mal traçadas linhas sejam expostas por este frustrado escritor.

Para tentar me redimir, quero inaugurar uma seção de contos jurídicos, chamada "Cotidiano Jurídico", com estórias verídicas - ou pelo menos a partir de relatos fidedignos - do mundo da advocacia. Dando o crédito, tive a idéia desta Seção a partir do telefonema do meu amigo Dr. Naná, grande fornecedor de contos advocatícios, que me forneceu esta estória diretamente do boteco que está, neste momento, junto ao causídico que admitiu a causa.

Pois bem, o referido causídico - que receberá o nome fictício de Dr. Naná, em homenagem ao meu amigo -, recebeu em seu escritório um Pastor de igreja, com a citação de uma ação de indenização na mão, ajuizada pela igreja na qual ministra o culto:

- O que se passou, Pastor?

- Doutor, esta ação é de um furto que ocorreu na igreja e estão dizendo que fui eu!

- E esta ação procede?

- Acho que sim.

- Quer dizer que foi o Senhor mesmo que furtou a igreja?

- Foi Doutor!

- Mas como Pastor?! - Disse Dr. Naná espantado e com a voz surpresa.

- É que na época, Doutor, acredite, eu era fraco na fé... 

Da base.