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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A Morte em Veneza, de Thomas Mann

 Comecei a ler A Morte em Veneza, de Thomas Mann, durante a minha viagem a Veneza neste último carnaval, como uma forma de conhecer um pouco mais da cidade para além dos cartões-postais. O livro, escrito por Mann — Prêmio Nobel de Literatura de 1929 — conta a estória de um escritor de meia-idade que, durante férias em Veneza, se apaixona obsessivamente por um jovem de 14 anos.


Confesso que a leitura demorou a engrenar. Achei boa parte do livro monótona, excessivamente lenta e pouco fluida. Mas tudo mudou nas últimas dez ou quinze páginas. Quando Mann começa a revelar uma Veneza decadente, triste, pútrida, sustentada por moradores e comerciantes preocupados apenas em preservar o turismo e os próprios interesses financeiros, a narrativa ganha uma força impressionante.


E o mais curioso é perceber que, apesar de o livro ter sido escrito há mais de um século, a Veneza que encontrei nesta última viagem — em que consegui permanecer mais tempo e observar melhor a cidade — mudou muito pouco. Com algumas exceções.


Da base.


quarta-feira, 24 de maio de 2023

O Barão

No início da década de noventa, durante os meus dezesseis aons, nas cercanias do saudoso colégio Moderno, onde estudava, existia uma figura hoje lendária, o Barão, que andava pela Braz de Aguiar e Benjamim, sempre transitando com desenvoltura e fazendo piadas nas rodas de jovens. Falar com o Barão era estar na “high society” paraense ou, pelo menos, assim se considerava na época.

O Barão transitava entre os Ponto de Bala, em frente a Zoomp, a Company, o famoso Manga Café, hoje inexistentes, mas, principalmente, na frente do Cosanostra, no pedaço mais badalado de uma Belém burguesa e jovem, nas quais desfilavam carros do ano importados, roupas de marca e esbanjamento de dinheiro, na engarrafada Braz de Aguiar, para os que querem ver e ser vistos.

Aparentando já ter cerca de quarenta anos, baixo, negro, sempre com roupas descoladas das marcas de grife que circundavam a Braz de Aguiar, destoava dos moleques brancos de quinze ou dezesseis anos que rondavam o local durante o dia, sejam os da alta sociedade ou mesmo de uma classe média que queriam estar entrosados. Mas, como disse, andava pelas rodas com desenvoltura e falando com todos, sem realmente conhecer ninguém.

Barão guardava carros na frente do Cosanostra, em seu auge, quando lotava a Benjamim Constant e a Braz de Aguiar. Naquela época, os desfiles de carros e a vontade de ser visto era tão grande que os carros não passavam ou passavam vagarosamente pela Benjamim, mas não havia nenhuma buzina ou irritação, apenas a espera para o “desfile”.

Pela tarde, quando saia da escola, via a desenvoltura do Barão, mas nunca tive o acesso para falar com ele. Somente o via, mas sem poder chegar.

Pela noite, quando os cabelos dos frequentadores começavam a esbranquiçar, uma vez vi a desenvoltura do personagem, transitando na frente do Cosanostra e do Manga Café, quando saí com o meu pai, sem no entanto entrar em nenhum dos dois bares.

A verdade que essa vida noturna de Cosanostra e Manga Café, na época, era um pouco difícil para quem morava no Guamá, com amigos lisos e em uma Belcity que os ônibus paravam de funcionar às onze horas da noite e somente voltavam às seis da manhã, tratando somente de chegar na Braz de Aguiar. Se formos considerar o preço de um bar da moda, como era o Cosanostra, era inacessível.

A crônica está longa, mas não posso deixar de contar uma das últimas do Barão: Um amigo, assíduo frequentador do “Cosa”, arranjou uma namorada extremamente ciumenta. Ambos conhecedores do Barão das áureas épocas. Esta, disse que o celular do Barão era muito antigo e deu um celular novo para ele. Todo dia, às seis e trinta da tarde, ela ligava para o Barão para saber se o meu amigo já tinha chegado no Cosanostra e se estava acompanhado. O Barão, inocentemente, passava toda a ficha.

Nunca soube se o Barão era mesmo um cara de bom papo, se era amigo ou, mesmo que inconscientemente, uma forma da elite de amenizar sua culpa pela desigualdade social naquele local tão elitizado. E o Barão, inocentemente, se beneficiou da sua figura “cult”.

Hoje, saindo do “Cosa”, fui buscar o meu carro na esquina, sob uma chuva torrencial, e ele estava lá, como esteve durante estes, pelo menos, trinta anos, molhado, sem mais as roupas de grife, mas vestido com um daqueles coletes de guardador de carro fluorescente e um cabelo artificialmente negro graúna. Dei-lhe algum dinheiro, desejei boa sorte e disse: - até a próxima, Barão!

Da base, 24/05/2023.


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

O triste fim da Era Jatene


Li recentemente uma reportagem da Folha de São Paulo cujo título é “120 cidades do país concentram metade dos homicídios” (https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/08/120-cidades-do-pais-concentram-metade-dos-homicidios.shtml?utm_source=app&utm_medium=push&utm_campaign=pushfolha&id=1565081345), que o Estado do Pará é uma constante na matéria e me lembrei de alguns pensamentos que escrevi em uma das minhas noites de insônia no final do ano passado e que não publiquei. Segue o texto atualizado e com percepções de agora:


Pois’é, após 12 anos acaba a era Jatene no Estado do Pará. E acaba de forma lamentável. O Governador que governou o Estado do Pará por três mandatos deixa tristes legados ao Estado e aos paraenses.


Una-se a isto os índices de saneamento básico, no qual o Estado do Pará possui apenas 1,18% de tratamento de esgoto (fonte: https://g1.globo.com/pa/para/noticia/para-tem-um-dos-piores-indices-de-saneamento-do-brasil-revela-pesquisa-do-trata-brasil.ghtml) disputando com Estados carentes como Amapá e Rondônia o último lugar.

Como piores índices do Brasil, não é estranho que o primeiro lugar dos piores Municípios com índice de IDH do Brasil se situa, claro, no Estado do Pará, que é Melgaço (Fonte: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2013/08/1325495-isola-cidade-com-pior-idh-do-brasil-convive-com-palafitas-e-falta-de-saneamento.shtml ). Quanto aos Municípios com piores índices de IDH, mais vergonhoso ainda que são Municípios que ficam no arquipélago do Marajó, com abundância de frutos e peixes, não um Município inserido no sertão nordestino, em que até acesso à água é difícil, se não impossível.

Sai Jatene, apagado, com seus aliados e pessoas que deveriam estar junto com ele virando as costas e passando para a oposição, certamente pelo estado que deixou o Estado, com o perdão do trocadilho infame. 

Apenas como exemplo dos dois segundos maiores cargos do Executivo do Estado, o seu atual vice-governador Zequinha Marinho foi candidato a senador apoiado pelo seu maior rival e o vice-governador do mandato anterior, Helenilson Pontes, é simplesmente suplente de senador do maior opositor.

E não apenas isto. O seu Governo todo foi sustentado por propaganda e apoio da principal rede de televisão e jornal do Estado do Pará, que passou, no fim do mandato de Jatene, a criticar o seu Governo, vislumbrando já a saída apagada e envergonhada de um governo sem expressão, que preferiu se encastelar no poder e governar para os servidores públicos, retirando direitos e defenestrando pessoas de cargos, como a Rainha de Copas de Lewis Carrol.

Pelo que me lembro, não deixou grandes realizações. Ouso dizer que não deixou realizações.

Não entregou os hospitais que prometeu na campanha, não melhorou a segurança pública, a saúde e passou todo o seu governo brigando com os professores, classe a qual também pertence.

O seu principal projeto, a rua João Paulo II, que permeou os doze anos de seu governo, até o esboço final da crônica no final do ano passado, ainda não havia terminado. Para não dizer que estou sendo parcial, deixou a obra do Parque do Utinga, ainda que de forma reduzida. Não aquele Parque do Utinga sonhado, com um aquário de peixes de água doce e muitos outros brinquedos, mas é um espaço de lazer, como se a população paraense não necessitasse de muito mais que um local para passear.

Talvez por isso que o PSDB sequer lançou um candidato próprio, o que é uma vergonha para um partido que governa o Estado do Pará desde a década de 90, com um pequeno intervalo de quatro anos do Governo Ana Julia do Partido dos Trabalhadores. Decidiu, o Governador social-democrata que se diz socialista, apoiar Márcio Miranda, de um partido de extrema-direita, que é o Democrata. Lamentável não apenas pelo tempo que está governando o Pará, mas pela opção de um governo que sempre disse que ia fazer a "nova" política e se demonstrou o maior defensor da política antiga.

Aliás, Jatene apoiou Márcio Miranda, mas este não pareceu querer esse apoio de forma explícita. As campanhas veiculadas na televisão e rádio, pelo que vi na época das eleições, não explorou o governo em curso e nem mesmo a figura do Jatene. Quando a situação aparecia, preferia explorar o próprio candidato e quase nunca aparece o então Governador, como um filho adolescente que fica envergonhado quando o pai vai lhe deixar na escola.

Já com esta crônica alongada, o PSDB acaba a sua longa era no Pará, sem prazo de validade para voltar, saindo Jatene isolado, escondido e melancólico, envolto em diversas acusações de corrupção, como é o caso dos incentivos fiscais da Cerpasa e do uso da máquina pública através do Cheque Cidadão, que lhe rendeu a hipótese de estar inelegível pela Lei da Ficha Limpa, espraiando as denúncias e suspeitas aos filhos, como o caso da filha, que possuía cargo em comissão no governo, em que na campanha de 2014 foi flagrada em uma escuta da polícia em conversa com o Secretário da Fazenda Nilo Noronha, pedindo dados de empresários para aparente contribuições de campanha, e o filho Alberto Jatene, que foi preso temporariamente na operação Timóteo, que envolveu Silas Malafaia, por suposto recebimento de propina na conta de um de seus postos de gasolina. Inocentes ou não, estas foram as denúncias que permanecem até hoje sem explicações.

Triste sina para um partido político que tinha carinho e, confesso, acreditava em sua doutrina durante os anos 90, ainda mais considerando que meu pai foi um dos fundadores do PSDB no Estado do Amapá, sendo até mesmo candidato a Deputado Federal por esse partido, e o tio da Preta foi o que juntou os cacos do Partido da social-democracia quando Almir Gabriel perdeu as eleições para a Ana Júlia, sendo um dos principais responsáveis pela eleição do Jatene. Somente para não verem o fim do partido no Estado do Pará é que fico feliz que ambos já tenham falecido.

Não sou cientista político e nunca fui, mas tratam-se de percepções do dia a dia que são melhores revisadas e escritas após oito meses que Jatene deixou o Governo e, ao que parece, pela porta dos fundos.

Fim melancólico da Era Jatene e do PSDB no Pará, que me lembra Chico Buarque, quando canta “... eu bato o portão, sem fazer alarde/ eu levo a carteira de identidade/uma saideira, muitas saudades/ e a leve impressão, de que já vou...”

Esboço em 05/12/2018 e revisão nesta data, na laje.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Rave em Veneza



Hoje o Facebook sinalizou que faz exatamente 06 anos de uma das melhores festas da minha vida.

No ano de 2013 decidimos passar o carnaval em Veneza. Após passarmos o dia na Piazza San Marco, a praça central, admirando as fantasias superelaboradas típicas do carnaval local e ouvindo música clássica (podem acreditar, o carnaval em Veneza é feito com música clássica), voltamos de Vaporetto (ônibus marítimo), pelo Grande Canal, ao mais que agradável Palazzo Sant’Angelo, hotel que estávamos hospedado.

Cerca de 22 horas locais, como um Doge, logo decidi que não ia passar a minha noite de carnaval no hotel!

O hotel ficava a meio caminho da Piazza San Marco e o Mercado de Rialto e saímos vagando indefinido, sem a menor intenção de nos direcionarmos à San Marco e suas músicas clássicas e fantasias suntuosas.

Após cerca de vinte minutos, chegamos ao Campo Sant’Angelo. Os denominados “campos” italianos são áreas largas, hoje em dia calçadas com pedras históricas, podendo ter ou não uma fonte. Neste caso não tinha. O que tinha, na hora, era um palco de metal com um Deejay, várias barraquinhas ao redor do Campo, também de metal, cobertas e com balcões, vendendo os mais variados tipos bebidas e comidas, especialmente sanduíche grego, pretzel, vinho quente e o Aperol Spritz, drink a base de espumante e um bitter, que faço até hoje em casa, depois que conheci neste dia.

E muita, muita, neve. Esqueci de dizer que Veneza estava sob temperaturas negativas, tanto que na noite anterior teve tanta neve em que o horário de entrada do hotel foi limitado - e nós, desavisados, quase não conseguíamos entrar no hotel -, tendo tido uma enchente em Veneza, em que o mar subiu vários metros, inundando inclusive o hotel. Na verdade, a título de lembrança, foi um fenômeno mundial, com influência da lua cheia, em que o Ver-o-Peso também inundou, para uma referência paraense.

Retornando, era uma rave. Apesar de a única parte da rave que gosto é que as vendas de cervejas não têm filas, pois os frequentadores, em face dos psicotrópicos, preferem as barracas de água, o fato é que esta estava bem divertida! Era composta de jovens locais, italianos e europeus, fora do circuito turístico!

E as fantasias, longe da suntuosidade e dos motivos medievais das da Piazza San Marco, eram mais contemporâneas e sem muitas preocupações. Um exemplo da que mais gostei foi a de Bender Bending, o robô alcoólatra e drogado de Futurama, que estava perfeita e o usuário também estava no clima da personagem.

Mas realmente o ponto alto foi a chegada de um jesus cristo. Um jovem esquelético de cabelos grandes ou uma peruca perfeita, vestindo somente uma tanga, uma coroa de espinhos e umas botas felpudas (afinal, nem Jesus Cristo ia aguentar aquele frio negativo descalço) chegou correndo pelo meio da plateia e pulou como uma pluma no palco, sob a ovação de todos os presentes. Após uma pequena apresentação, ainda sob aplausos, assumiu as pickups e tocou mais música eletrônica.

Eu, mesmo distante dos jovens e do palco, bebi vinho quente, aperol spritz e me empanturrei com um sanduíche grego. Grande festa, simples, despretensiosa e barata – o copo (de plástico, claro) de vinho quente, custava dois euros, bem diferente da Piazza San Marco, em que uma taça vinho facilmente chegava aos dez. Depois, já na madrugada, ainda tentei um bar que ficava na parte posterior do palco, mas a minha estória era a rave.

Finda a festa, tínhamos que voltar para o hotel. O frio insistindo em atravessar o nosso casaco e o meu GPS mental retardado pelo pequeno excesso etílico. Partimos pelas ruelas históricas da ilha, passando por minúsculas pontes sobre os canais, em caminhos cada vez mais apertados, em que, cada vez mais, pareciam todos iguais e com um ar sombrio e deserto de uma cidade medieval. Chegamos, inclusive, a rodar em círculos, o que gerou certo desespero mas, enfim, em um momento de sobriedade, lembrei do caminho de volta.

Um grande carnaval, muito mais pela rave do Campo Sant’Angelo que pela suntuosidade da Piazza San Marco.


Da base.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Machado de Xangô


Após um final de semana sentimentalmente cansativo e uma segunda-feira de trabalho de volta de recesso judiciário, decidi ir ao bom e velho Cosanostra, que sempre posso ficar no balcão sem incômodos. Logo surgem os habitués do local. Primeiramente Romeuzito, com a sua simpatia peculiar e o seu perfume sempre em dia e, após, a esquadrilha da fumaça completa. Saímos pra fumar e eu, sempre ligado no celular, já um pouco mais relaxado e tranquilo.

Fugi deles e voltei pro balcão. Queria a minha introspecção solitária de franciscano enclausurado, ainda que conectado nas redes sociais da vida. Sem comer desde o almoço do dia anterior, pensei em pedir um tira-gosto quando, vejo passar na frente do Cosa o Edney, voltando pra casa. Claro que o chamei e sentamos na frente para termos mais liberdade pra fumar.

Conversa sempre deliciosa. Cara incrível e um grande amigo, fiel e parceiro, fizemos piadas sobre as nossas vidas perdidas, arte (a arte é inútil, como diria Oscar Wilde no prefácio de Dorian Grey, mas mesmo assim, eu e Edney, concordávamos que vivíamos dela, de certa forma) e conversamos muito sobre desilusões – ou ilusões – amorosas.

No meio da conversa, apareceu um jovem nervoso vendendo um chaveiro. Aparentava não mais que 26 anos, gaguejava. Estava vestido com uma camisa branca amarrotada de mangas compridas e velha, com os punhos enrolados até o meio do antebraço, calças jeans clara e surrada e, o que me chamou atenção, umas sandálias havaianas brancas, que mal cabiam no pé, fazendo com que os dedões ficassem pra fora da sandália, encostados no chão.

Dizia ele, com a voz embargada e pronunciando as palavras pausadamente como quem não conseguisse concatenar as ideias, que já vendeu todos os chaveiros que ele mesmo produziu e que somente faltava este, que estava espalmado na sua mão e que venderia por qualquer valor.

No que pese a figura amena do jovem, logo veio algo que tensionou minhas costas e, particularmente, a minha omoplata. Senti que estava em uma bolha, que me puxava as energias e me deixava apreensivo.

Edney logo falou para o jovem que não queria o chaveiro, mas queria ajudá-lo e perguntou como seria. O Jovem, muito constrangido e gaguejando disse, dando uma pausa de alguns segundos, que seria com dinheiro. Logo, o meu amigo puxou uma nota de vinte reais e deu para o jovem, que se virou pra mim, ainda que tivesse sido o Edney que tivesse dado o dinheiro, tentando me dar o chaveiro espalmado na sua mão e reafirmando que ele mesmo tinha feito. O Edney puxou a atenção pra si e disse pra ele levar o chaveiro e vender pra outro, que talvez conseguisse algum valor.

Instantaneamente toda a carga que pesava sobre as minhas costas foi embora, ficando apenas um resquício que ainda paira agora.

Com o jovem longe, Edney me fala que aprendeu a respeitar as criaturas da noite e me pergunta se eu sei o que era o chaveiro. Digo que não e ele me fala que é o machado de xangô.

Da base, em 22/01/2019.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Insônia

Ainda estou com sono, mas não consigo dormir. Após acabar o segundo cigarro, furtado do meu cunhado, constato que ainda não é o dia para eu parar de fumar. Deixo um bilhete no sofá, mesmo sabendo que ninguém vai ler. 


Parto da vista do mar, procurando cigarros. Subo a Miguel Lemos e desço a Nossa Senhora de Copacabana. Paro no primeiro bar a esquerda, como manda a tradição. Stalos é o nome. 


Bar lotado, apenas vaga no balcão, que é melhor, pois minhas costas doem, meio tensão de um dia difícil, meio resposta de uma vida toda sentado.


Compro um chopp e, após dar um trago, vontade de escrever. Difícil escrever no celular, preciso do meu computador. Um jovem de cabelos descoloridos fica me olhando e me analisando, enquanto outro jovem lhe acaricia as costas. Talvez seja a minha camisa do Morrissey que tenha chamado a atenção.


Penso em antigos amores platônicos, enquanto o chopp esquenta mais que o normal. O que ela estará fazendo? Como ela está depois de tantos anos? Espero que esteja bem, dormindo neste momento, com um sono descansado e feliz. Procuro um local no balcão que esteja refrigerado, para que o chopp não esquente tão rapidamente.


No momento em que uma espanhola bêbada pede uma pizza sobre os meus ombros, pensei em Bukowski dizendo que o álcool é uma sinfonia, que você bebe para ir pro céu enquanto está sofrendo ou sendo pressionado. Algo assim.


Espero pra receber outro chopp das atendentes, diversas, que não me olham. Resolvo chamar e me atendem. Muitos jovens e um ritmo frenético. Somente eu centrado no celular, escrevendo, com a vista dos doces embaçados pelas bordas do celular no balcão.


Pensamentos existencialistas pululam. O que será daqui pra frente? Penso no meu moleque e no meu amor clichê por ele. O que de mais importante existe.


Outra vez Bukowski, O Amor é um Cão dos Diabos.


Acendo outro cigarro. Bateria acabando. Guardo o celular, economizando na esperança que alguém ligue, mesmo sabendo que não vai acontecer.


Copacabana não dorme. Nem eu.






Rio de Janeiro. Copacabana.



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Pssica, Edyr Augusto, 2015.



Romance regional,  que toca na triste realidade do Pará de hoje, com tráfico de escravas brancas para prostituição, violência e assaltos nos rios paraenses - com os famosos "Ratos d'Água" -, corrupção na política e ausência do Estado nas regiões ambientadas.

Ambientado na Capital Belém e na Ilha do Marajó, é um romance intenso, forte e que expõe a dura realidade paraense, relegada pelas autoridades como se não existisse e não vista dos condomínios fechados e dos prédios do centro da Cidade. Traz à tona toda a marginalidade dessas localidades e dos rios e uma grande reflexão, ainda que subliminar, do Pará que nos tornamos.

O Autor já é um veterano, possui cinco livros, alguns traduzidos na Inglaterra, Peru, México e França e premiado neste último País.

Excelente livro.

Da Base.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

As Pequenas Violências do Dia-a-dia e o Poder Efêmero

Tenho valores para receber de uma ação judicial. Consultando o andamento no sítio do Tribunal respectivo, vi na internet que havia despacho determinando a manifestação do devedor, mas não constava que foi publicado e não encontrei a publicação no complicado acesso ao Diário de Justiça da União.

Decidi ir ao Tribunal, tão somente para verificar se foi publicado o despacho prolatado há cerca de 15 dias e, caso não tenha sido, que houvesse a publicação. Passei quarenta minutos no trânsito paraense infernal rodando para estacionar. Até aí aparentemente nenhum problema, se não fosse que o trânsito estava péssimo por pura falta de educação dos motoristas, com carros mau estacionados, ocupando duas vagas, carros fechando o cruzamento, filas duplas, caminhões nas ruas em horário de pico, dentre outras má educações comuns no trânsito paraoara. Ando duas quadras no sol a pino de duas horas da tarde e chego na Justiça somente para pedir que fosse publicado. Resumindo, a atendente, servidora pública federal, em clara má vontade,  me disse que não podia fazer nada, pois tinha um parecer (sequer sei se é possível isso!) que dá o prazo de 60 dias para publicação.

Pedi celeridade, disse que se tratava de verba alimentar, que o processo já estava julgado e que se tratava de uma mera publicação, em uma submissão de um cachorro que estava levando bronca do dono. Aos que trabalham com Justiça sabem que brigar com servidor é pior que brigar com Juiz, pois se a Justiça já é morosa, com a briga, o processo não vai andar nunca mais.

Pois bem, a servidora me deu de ombros, fez uma cara irritada (como se eu estivesse pedindo favor! Pasmem!) e colocou o processo ao lado de sua mesa, dizendo que tinha até fim de setembro para a publicação!

E não pensem que isso é uma situação que somente acontece nesta República das Bananas. Estava domingo em Miami, Estados Unidos da América, quando estacionei o carro em um estacionamento privado. Aos que conhecem, sabem que a grande maioria dos estacionamentos são completamente automatizados e que se paga em maquinetas. Por causa do meu inglês aprendido com Joel Santana, acabei colocando um dos dados do veículo equivocado, mas um erro de fácil identificação, ainda mais que o boleto tinha que ficar dentro do carro e à vista de um eventual fiscal, o que fiz. Quando chego, havia uma multa administrativa e desta vez havia um fiscal do estacionamento. Fui conversar com ele, primeiro perguntando o motivo da multa e após explicando que foi mero erro, que o estacionamento estava pago e que o boleto estava no carro, visível. O funcionário contratado pelo estacionamento, com a empáfia de um sargento em bordel do interior, me julgou naquele momento, disse na fundamentação que não poderia fazer nada e aplicou a pena sumária de multa!

No mesmo dia, pela noite, fui embarcar de volta ao Brasil pela LATAM que, para mim, é a empresa campeã das pequenas violências ao consumidor. Acho que a companhia têm um manual, de observância obrigatória, intitulado "Como Irritar o Consumidor da Latam - Subtítulo: "Deixe o Passageiro Puto e Ainda Tire Sarro!". Começou na fila, em que mantenho um cartão de crédito da empresa apenas para ter embarque prioritário. O Cartão não serve mais para absolutamente nada, só para ter prioridade no despacho de bagagens e embarque. Quando apresentei o cartão, veio uma funcionária brasileira dizendo logo que este cartão somente serve no Brasil, no exterior não serve. Questionei o motivo, pois a empresa é a mesma e ela na sua autoridade momentânea, no seu pequeníssimo e brevíssimo nicho de poder, apenas sentenciou que não tinha validade e nada mais.

Cheguei no guichê e notei que os meus assentos, que estavam juntos com a Preta e o moleque, marcados há meses, foram modificados aleatoriamente pela empresa. Reclamei, claro. A atendente, na maior da boa vontade e me dando razão, chamou o supervisor pelo rádio, supervisor este que nunca chegou e eu, decidi colocar mais uma vez a minha raiva no saco e somente pedi para colocar-nos em assentos juntos e fui para a imigração.

Após esse dia, ainda tive que encarar a arrogância e a autoridade contra latinos que os agentes de imigração americanos, que geralmente também são latinos, possuem. "Cucarachas" com Green Cards, que sistematicamente ofendem outros "Cucarachas" (neste e em outros dias, esse cucaracha era eu!), como se todos não fossem latinos, dentro de seu pequeno espaço de poder de conferencistas de passaportes. Como diria o saudoso Paulo Silvino, o espaço de poder do cara-crachá!

Muitos devem estar lendo e dizendo que eu não deveria aceitar, que deveria fazer reclamações e entrar na Justiça! Não aceito! Reclamo sempre! Ao vivo e nos sites e ouvidorias respectivas! Mas o resultado é, no máximo, uma carta de desculpas padrão! Em todos os casos essas violências são praticadas por pessoas que estão dentro do seu pequeno nicho de poder e que acham que podem descontar a violência diária que recebem, em um sistema de propagação de pequenas violências e em um ciclo interminável de disseminação de ódio. Um poderzinho efêmero e arrogante, geralmente tidos por pessoas que não têm nenhum preparo para ter qualquer poder, que os titulares acham que lhes dá um salvo conduto para praticar o que querem ou, no mínimo, criar dificuldades. Esta é a moral e lógica do ódio de hoje.

Quanto a entrar na Justiça nesses casos, absolutamente inútil! Primeiro que se vai ter que passar por um processo longo e penoso, com mais pequenas irritações como a que relatei no primeiro parágrafo. Segundo, estas pequenas violências não são tuteláveis pelo direito, ante o princípio de que o direito não lida com bagatelas.

O fato é que, essas violências vão se repercutindo e passando de pessoa por pessoa, em um ciclo interminável de ódio, até chegar na sua ponta, que pode ser uma briga de rua, o marido agredindo a esposa quando chega cansado no final do dia ou a esposa agredindo o marido, o filho apanhando ou, até mesmo, um eventual assassinato, na rua ou em casa, em um momento de raiva e descontrole.

Os mais antigos devem se lembrar de um filme do início da década de 90 chamado "Um Dia de Fúria" ("Falling Down"), estrelado por Michael Douglas. Foi um filme de muito sucesso na época, que conta a estória de um dia de um pai de família e trabalhador sério e honesto, que começa sendo despedido por injustiça e passa por pequenas violências no dia, como na clássica cena em que entra em uma rede de fast food e recebe o sanduíche completamente diferente do que está na foto do anúncio. Acaba que ele agita toda Los Angeles e faz uma barricada, se bem me lembro, com um arsenal de armas em uma praça e o exército querendo pegá-lo, mas não consegue em face do grande estoque de armas e munições que possui. E tudo que ele queria era tão somente chegar no aniversário de sua filha. O filme é fantástico e ilustra muito bem esta mais que extensa crônica e os dias que vivemos hoje.

 Aliás, todas essas pequenas violências que passei e que muitos de vocês passam também (e que muitos escondem), poderiam se encaixar muito bem na película, confessando que têm dias que gostaria de ser o Michael Douglas em determinados momentos do filme, como na cena em que ele quebra toda a lanchonete.

Da base.

terça-feira, 24 de julho de 2018

História do Cerco de Lisboa, Saramago, 1989

Terminei ontem a obra "História do Cerco de Lisboa", de José Saramago, escrito em 1989.

O livro trata da estória de um revisor, que parte para reescrever o Cerco de Lisboa, quando os Mouros estavam na posse da Capital portuguesa e o Rei chama os Cruzados para a retomada.

O escritor traça o relato de uma história que todos sabemos como acaba, de uma forma diferente, com literatura e duas estórias de amor, fazendo paralelos com a história do cerco e os tempos atuais, especificamente quanto à vida deste revisor de livros e poemas.

No estilo inconfundível de Saramago, uma das obras mais bem escritas que já li. Realmente, o ponto alto, sem desmerecer a novela (absolutamente), é a narrativa dos fatos e o primor e cuidado pelo vernáculo e a escrita.

Da Base.


sábado, 13 de janeiro de 2018

Uísque e Jingle Bells

Todo ano, um grande amigo meu faz um natal especial para as crianças conhecidas dele. Como ele mesmo me disse quando ligou para convidar a família Cavalcanti, a festa é para as crianças, para que mantenha viva a crença no Papai Noel.

Então, a estória era a seguinte: a criança escreve uma cartinha para o Papai Noel pedindo o seu presente. Os pais compram e entregam para o meu amigo anfitrião. No auge da festa, o Papai Noel chega na festa de Natal, lê a cartinha da criança e entrega o presente, em um realismo natalino que poderia fazer até um adulto acreditar.

Chegamos na festa, uma bela casa, com muitas crianças e os seus pais, que se sentaram em uma das pontas da mesa de jantar, devidamente munidos de uísque e tira-gosto. Afinal, não eram apenas as crianças que poderiam se divertir nas vésperas do dia 25.

Primeiro, uma apresentação de mágico que reuniu todas as crianças e alguns adultos, inclusive eu, que adoro ilusionismo.

Logo em seguida o ponto alto da festa, a entrada do Papai Noel! Jogo de luz, som alto com música de suspense, centenas de balões jogados do alto, muito gelo seco e então o Papai Noel entra por uma porta lateral, cuidadosamente decorada para parecer uma lareira, em uma superprodução de fazer inveja a filme de Hollywood!

As crianças embasbacadas e não acreditando que estão vendo o Papai Noel na frente delas! E era o Papai Noel mesmo, com a perfeita indumentária vermelha, barba branca natural, o gorro escondendo o cabelo branco da cor de algodão, o grande saco vermelho com os presentes de todas as crianças do mundo e o Ho ho ho tradicional.

Pedro, então, cético como ele é, seguidor de São Tomé, olhava o Papai Noel desta vez acreditando que ele realmente existia, pois estava na sua frente.

Santa Claus sentou-se em uma poltrona pomposa ao lado da gigante árvore de natal da casa e passou à liturgia que me explicou o anfitrião, com a leitura da cartinha de todas as crianças e a entrega dos presentes, inclusive com o Pedro, que mais que estar feliz com a sua iguana e a tartaruga de brinquedo, que havia escolhido em sua cartinha com duro esforço da Preta, não parava de olhar o Papai Noel.

Mas o ponto alto desta crônica é o Papai Noel. Melhor, o que ocorreu depois da distribuição de brinquedos e do Jantar. Justo que o bom velhinho, após a viagem extenuante do Polo Norte, estava com fome e se serviu para repor as energias.

Também tirou o seu pesado casaco vermelho, afinal, a temperatura de Belém é bem mais alta que a do Polo Norte. Na retirada do casaco, estava de suspensórios vermelhos e uma camiseta branca, com detalhes natalinos na frente, com a inscrição Merry Christmas. Sentou-se na ponta da mesa onde estavam os pais e se serviu de uma dose generosa de uísque.

Começamos a conversar, eu e o bom velhinho, cada qual com seu aperitivo escocês na mão e, de quando em vez, servíamos de mais uma dose e balançávamos o copo para apressar a diluição do gelo. Descobri que Santa Claus possui um irmão gêmeo, que também faz bico de Papai Noel durante o período natalino, principalmente no Shopping Boulevard, e que os dois fazem uma dobradinha, fácil quando são gêmeos idênticos.

Aliás, essa de um se passar por outro, vem desde a infância, no Bairro de Nazaré onde foram criados e moram até hoje. Infância que o seu irmão recebeu o apelido de "cara de meia" e o meu Papai Noel, por óbvio, recebeu o apelido de "irmão do cara de meia". Ainda que não precise explicar, o apelido vem do fato de que uma meia é sempre igual à outra.

E foi passando a noite, as crianças indo embora, e o Santa Claus contando estórias de sua infância e juventude, sorvendo cada vez mais doses de uísque e tira-gostos, desta vez vindo dos rechauds onde fora servido o jantar. Pedro, desconfiado com o Papai Noel sentado na mesma mesa que ele e o seu pai, olhava de soslaio, ainda mais quando saía algum palavrão contido.

Estava ficando tarde, o sono apertando e tinha que levar o Pedro pra casa, mas não sem antes ver o Papai Noel batendo de frente com um vidro, quando tentava atravessar uma porta envidraçada para fumar do lado de fora da casa.

Da base.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

A Encantadora de Crianças

A primeira vez que a vi foi na antessala de um consultório. Bela, altiva e, principalmente, com a confiança típica da juventude.

Na hora a dúvida de confiar a criança da casa, nosso maior bem, àquela jovem, que logo nos primeiros dias se dissipou, ante a clara segurança no que estava fazendo e a técnica utilizada, que demonstrava o conhecimento dos melhores profissionais.

Era impressionante como ela conseguia fazer com que o menino, em poucas horas, fizesse tudo que ela queria. Parecia encantado, com uma diferença, mesmo quando ela nos deixava, permanecia sob o encanto, levando o conhecimento aprendido com o feitiço para toda a vida.

Estávamos vivendo a fábula de Hamelin. Aliás, a melhor parte, pois além de conseguir que o ratinho a seguisse ao som de sua decidida flauta, conseguiu, inclusive, em episódio emocionante, que o próprio ratinho tocasse o instrumento.

Nestas tardes diárias, ainda apareceram o riso fácil, a alegria, e mesmo algumas doses de autoritarismo, que acabou encantando todas as outras crianças da casa, ainda que todas estas outras estivessem na casa dos trinta ou mais.

Foi aí que se deu a outra fábula, a de Lewis Carrol, e lhe cortaram a cabeça.

Infelizmente foi embora, por uma falta de opção ou mesmo de coragem nossa, não sem antes nos deixar um vazio no peito e nas nossas tardes, que já estão mais tristes.

Fique bem e que Deus lhe reserve um grande caminho. Quero lhe ver sempre como da primeira vez, bela, altiva e confiante, com os nossos agradecimentos eternos.

Da base.

sábado, 3 de setembro de 2016

A Moça do Mercado da Ribeira




Depois de um dia todo no Zoológico de Lisboa, extenuante, correndo com o filho para ver golfinhos, leões, zebras e antílopes, o pai decidiu não voltar para o hotel e partir direto para o jantar. Afinal, se o moleque voltasse, não iria querer mais sair do quarto. Muita discussão depois, decidiu, o casal, conhecer o Mercado da Ribeira.

Táxi, perguntaram se estava aberto - domingo, em Lisboa, muitos lugares fechados -, e chegaram ao mercado belamente restaurado, hoje repleto de bares e restaurante, incontáveis os tipos de comidas e bebidas, e muito boa qualidade. Acomodou a esposa e o filho em uma mesa coletiva concorrida, saiu para buscar urgente o jantar do filho, sob as regras da mãe do tipo de comida! Jantar preparado e entregue, foi viabilizar as relaxantes taças de vinho.

Wine Bar no centro do salão. A atendente, uma loirinha, olhos azuis e a pele alva da península, um sorriso com a boca desproporcional das mulheres lindas, acolhedor e ao mesmo tempo sensual, como uma Julia Roberts juvenil.

O corpo serpenteava uma falsa magreza, que dava para prever, mesmo sem ter visto, as nádegas firmes e redondas, escondidas, cuidadosamente, em um shortinho preto formal, que para baixo saiam as pernas finas, proporcionais e cuidadosamente fabricadas em um torno divino e, para cima, uma blusa branca de seda, na qual os dois pequenos montinhos poderiam ter sido dados por uma Ninfa.

De longe possuía um ar doce e angelical, uma fadinha sem asas, como se fosse de porcelana, ar esse que logo se desfez quando se aproximou.

Continuava linda, mas se apresentava discretamente simpática, quando tascou logo um "hello" de atendente pensando que o marido era inglês ou americano, com uma simpatia objetiva. Aliás, a simpatia objetiva também foi o mote do profissionalismo, quando disse que queria um bom vinho da região que, olhando nos olhos do cliente, puxou uma taça de um armário baixo e disse, com a segurança de um sommelier italiano: - Esse é o meu preferido! Douro!

Servida a prova do líquido cor de sangue, rodou o vinho no copo sutilmente para respirar - ou, o mais provável, para demonstrar para a moça que não era tão ignorante na arte de baco - e realmente o vinho era delicioso!

Cumpre dizer que, ao tempo que estava provando, a moça atendia vários outros clientes com a mesma simpatia, permeando com perguntas sobre se gostava de mais frutado ou com mais estrutura, que demonstrava o conhecimento do que estava fazendo, mesmo com a sua pouca idade.

Disse que era esse e que queria duas taças. Retornando à mesa, o casal bebeu a taça de vinho, sem que o homem pudesse se desligar da imagem da ninfeta, que abreviou o término, logo voltando para comprar mais.

Com a coincidência previsível, lá estava a moça, outra vez com as mesmas perguntas objetivas sobre como os clientes queriam o vinho: - Mais estrutura? Qual região? Sempre com a tal simpatia objetiva que envolvia os homens e deixava alguns embasbacados tentando demonstrar os seus parcos conhecimentos enófilos.

Era isso que encantava e seduzia: a simpatia e o conhecimento dos vinhos. Com objetividade, sem firula, apenas o conhecimento dos vinhos e, claro, a beleza de uma escultura renascentista, ainda que discreta.

Por uma terceira vez o marido foi ao Wine Bar, obviamente para o vinho mas, pensando que não seria nada mal ver a loirinha outra vez.

Chegou ao local, a moça não estava mais. Estava atendendo em seu lugar um jovem de cabelos castanhos-aloirados, um pouco grandes, penteados para trás e seguros com gel, alto e atlético, com a similar camisa de seda que revelava um peitoral protuberante e lhe dava um ar de amante italiano de filmes de comédia romântica.

Sem mais o sorriso abobalhado que estava das duas últimas vezes, o marido disse seco: - um Porto e um cálice de vinho tinto, e retornou prontamente para a mesa com a esposa, sem deixar de pensar que é melhor, a partir de agora, não deixar a esposa comprar vinho no Wine Bar ...


Da Base.

quarta-feira, 27 de julho de 2016

A Vítima do Preconceito



Aí estava eu na fila da alfândega, vencedora! Voltando da visita aos meus pais, muito pobres, na África, retornando para a minha atual casa, em Paris. 

Vim tentar a vida na França, muito jovem, com meus trinta e dois anos,  já formada em antropologia e, mais, com mestrado e doutorado. Fiz carreira acadêmica. Eu, a primeira da família a frequentar uma universidade. A primeira a andar de avião. A primeira a ter um carro e o orgulho dos meus pais e da pequena comunidade que eles vivem, mais correto denominar da tribo que eles vivem. Hoje ajudo todos, meus pais, a maioria dos meus oito irmãos e até mesmo uma pessoa da comunidade.

Mas isso teve um preço! Claro! Principalmente no preconceito racial! Fui perseguida, puxaram o meu tapete várias vezes, desmerecida, desacreditada, somente para falar no lado profissional, tudo por ser negra.

Mas agora venci e estou retornando para a minha casa em Paris, estabilizada e, no alto dos meus quarenta e seis anos, não deixo mais qualquer preconceito por menos e luto pela minha cor, minha cultura e pelos meus irmãos... Por isso uso minhas roupas europeias, mas sempre ostentando o meu turbante tribal!

De repente, na fila, sinto umas pequenas mãos me empurrando! Olho para baixo e sai correndo uma criança branca, de cerca de cinco ou seis anos e logo a mãe me pede, em português, desculpas. Não respondo e olho fulminantemente para a mãe.

O que é isso? O que essa mãe pensa que é? Qual a criação que ela deu para o filho? Tocar nas pessoas porque são negras? É por isso que existe preconceito no mundo! Por isso que sofri tanto! Essas mães desde cedo ensinam os seus filhos a fazerem chacotas e serem racistas! 

Não falo nada e vejo a criança branca tentando correr na fila da alfândega, cantando alto músicas mal interpretadas e com uma dicção de palavras imperfeitas, algumas vezes em português, outras em inglês e outras vezes em uma língua incompreensível.

Volto à fila pensando no que ocorreu! Preconceito! E sinto novamente uma trombada nas minhas costas! Outra vez a criança branca que, como se nada tivesse acontecido, sai correndo e cantarolando as músicas incompreensíveis! O pai de pronto pediu desculpas em português!

Mas não aguentei! Não vou mais suportar qualquer tipo de preconceito branco! Não mais agora! Me voltei para a mãe (claro, teria que ser ela! Mesmo que o pai estivesse perto, foi ela quem criou e é sempre mais fácil tratar com a mulher) e perguntei, no melhor inglês! Claro! Língua universal e dos dominadores! Língua forte e com o meu linguajar perfeito e puxando para o sotaque americano para demonstrar ainda mais que não ia me submeter a preconceitos, bem ao estilo Malcom X:

- Por que o seu filho está tocando em mim?

Aguardei! A mãe paralisou! Criei o impacto e demonstrei que não sou uma qualquer!

O pai se aproximou e perguntou o que foi. Repeti com a autoridade dos Panteras Negras:

- Quero saber por que o seu filho está tocando em mim!

O pai, em tom de explicação, em um inglês tosco e cheio de falhas, se voltou e disse:

- O meu filho tem autismo e algumas vezes é difícil controlá-lo... Mas me desculpe!

Desta vez quem congelou fui eu. Não falei nada. A fila andou, dei as costas e segui na fila.... Mas logo voltei ao pai e disse, tentando arranjar a minha primeira justificativa:

- Tem uma fila de prioridade!

O pai responde, já com o filho no colo:

- obrigado!

Fico pensando: Será que ele vai carregar a criança somente para não me tocar mais por toda a fila? Em uma fila que já estava a cerca de uma hora e meia e mal tinha passado da metade? Em mais uma reação espontânea e sem muito pensar, me volto ao pai, e digo:

- O seu filho pode me tocar de novo!

Mais um "obrigado" do pai, com a criança no colo! Desta vez com a mãe se oferecendo para o pequeno passar para o colo dela!

Mas ora, por que os pais não entraram na fila de prioridades? Eles têm direito! Por que sujeitar a criança a essa fila? Será que eles querem levar a criança da forma mais normal possível? Essa hipótese não pode existir!

E, também, como iria adivinhar? Se tivesse síndrome de down ou fosse cadeirante seria completamente perceptível! Mas autismo? Não são aqueles que ficam parados na frente de uma parede, se balançando ou jogando uma bolinha incontáveis vezes no chão? esse era risonho! Somente corria e cantava umas músicas indecifráveis! Seria autismo mesmo?

De uma forma ou de outra, não conseguia mais olhar para a família! Pai e mãe se revezando com a criança no colo e a própria criança me parecendo que sentiu o impacto! Já se atracava no colo e deitava a cabeça no ombro de quem estivesse! 

E eu olhando para baixo! Sem ter coragem de levantar a cabeça por medo de um soslaio chegar na família ou, o que seria pior, na criança branca....

De repente aparece um fiscal da alfândega, primeiramente chamando uma família com duas crianças negras que estavam no meu vôo e, depois, chamando a família da criança branca problemática, dizendo para irem para uma outra fila, quase vazia, para passarem mais rápido.

Alívio! Pude levantar a cabeça, mas meus olhos encontraram os olhos do pai branco, que apenas teve a reação de me dar um "adeus", em um inglês melancólico e também aliviado!

Enfim... O meu preconceito desapareceu com a ida daquela criança alva problemática... Não sei se venci desta vez....

Do Porto, Portugal.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Tal filha, tal pai

Estória baseada em fatos reais, pelo menos o final:

Toca o telefone, o pai atende o celular pacientemente e a filha estudando e ouvindo no quarto:

- Sim, sim, esse telefone é da Bete.
...
- Bete é a minha mulher.
....
- Ela está sim, mas não pode atender agora.
...
- Está ocupada.
...
- Na cozinha!
....
- Eu posso resolver por ela, o que é?
...
- Eu sou marido dela... posso resolver!
....
- Diga o que é!
....
- Tenho todos os dados dela, posso confirmar!
....
- O CPF é 587.934.763-25 e a data de nascimento é 27/06/1949!
.....pausa longa...
- Não. Ela não está interessada em trocar de plano!
...
- Ela não quer nenhum combo!
....
- Ela está satisfeita com o plano dela....
....
- Pode ser vantajoso, mas ela não quer mudar!
....
- Não! Ela não pode atender!
....
- Está na cozinha e não vai querer nenhum combo...
....
- Eu falo por ela!
....
- Minha querida! Nada é de graça!
....
- Nenhuma operadora faz nada para perder dinheiro!
....
- Ela não vai atender!
.....
- Ela não pode pegar o celular e não vai querer nada!
....
- Eu já resolvi!
....
- Ela não vai falar com você!


A filha, no quarto, ouvindo toda a conversa, pensa:
- Se fosse eu, já teria mandado tomar no cú!

De repente, após uma longa pausa, ouve-se o grito na sala:
- Vai tomar no cú, sua vaca!

A filha dá um sorriso no canto da boca e volta a estudar...

Da base.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

A Imperfeição

Ouso dizer, afirmo e confirmo, que a beleza está na imperfeição. Nada é mais belo que algo imperfeito, ainda mais nestes tempos em que a busca espartaniana do perfeito está cada vez mais latente. 


Explico: Cada dia que passa as pessoas se exigem mais. Tenho que ter o corpo bonito, mais malhado, tenho que ser o melhor profissional, tenho que ser um bom pai, uma boa mãe, o melhor esportista, o primeiro da turma, da universidade, o melhor profissional, o mais bem sucedido, o esteticamente correto, o politicamente certo. O certo, nunca admitindo a pequena falha, por menor que seja.

Já escrevi algumas linhas tempos atrás por aqui acerca do politicamente correto e que, na maioria das vezes não é real e, quando é, torna as pessoas chatas, o que é imperdoável. Portanto, não vou chover no molhado.

Voltando ao tema, o amor ao imperfeito tem como constatação empírica dois exemplos, minhas paixões - no que pese existirem muitos outros e possivelmente gerarem um livro se decidir enumerá-los -: os vinhos e as mulheres.

Sou apenas um enófilo, mas nada mais enfadonho que um vinho estruturalmente perfeito e equilibrado. Para que serve um bom vinho, geralmente caro, se se sabe o que vai se esperar dele. O olor, a cor, a persistência e todas as demais características corretas e sem defeitos que o faz excelente, mas que, ao final, sabe-se excelente, porém, sem nenhuma surpresa.

Da mesma forma as mulheres. Vejo mulheres hoje usando de todos os artifícios para ficar mais bonitas. Uma busca incessante pela beleza que passa, invariavelmente, pela academia e pela anorexia. E, o que é pior, muitas vezes não é a sociedade, mas a própria mentalidade da era atual que diz que somente sendo magra e malhada é que a mulher vai ser bonita. Criamos um exército de mulheres padrões, iguais, com corpos espetacularmente certos que, se não se deve à malhação, se deve ao bisturi.

Não estou fazendo qualquer ode ao "embagulhamento" feminino, muito menos tirando o pão dos cirurgiões plásticos. Por favor, não interpretem mal. Durante esses alguns anos de blog, todos já devem saber que, se for para ficar feliz, sou o maior incentivador, desde pular de pára-quedas até fazer tatuagem na polinésia com dente de tubarão.

O que condeno é a imposição da sociedade da beleza padrão, perfeita e a qualquer custo.

Lembro de um artigo que li, há muitos anos atrás, em um jornal diário, do Paulo Cal, que era amigo de infância do meu pai, que o tema central era as celulites. Dizia ele, se a minha memória não falha virtude do tempo, que as mulheres sem celulites não possuem estórias para contar, pois passam os seus dias em academias  e se privam de diversos prazeres da vida em busca do corpo perfeito. As mulheres com celulites sim, te acompanham e pedem a sua caipirosca e vivem a vida, se bem entendi do artigo.

Não quero ser tão radical e também infirmar o artigo, pois se, quem quer que seja, curtir academia ou a perfeição, deve os seus objetivos perseguir, como um hedonismo saudável.

Mas, certamente, o perfeito não é o belo. O belo tem que ter algo de errado, de diferente, de surpresa. De surpreendente.

Como exemplo, conta a lenda que Diego Rivera, o marido promíscuo de Frida Kahlo, se apaixonou pelas marcas de acidente que ela possuía. Logo ele que era um pintor e que se exigia o perfeccionismo. Quem sou para discutir? Melhor, não discuto por convicção, pois por convicção o belo não estão no perfeito, mas na diferença e, principalmente, na alegria modesta da pessoa de se achar bela.

O vinho, como a mulher, tem que ter um quê de imperfeição, que os diferencia e que os fazem ímpar. Que nos surpreende e que nos faz amá-los. Amá-los não cegamente, muito menos por serem perfeitos, ao contrário, mas pelo fato de serem imperfeitos, como a condição humana.

E aí está a beleza da imperfeição, a surpresa e o fato de não ser comum, que torna as pessoas mais humanas e mais reais.

Da base.

Pedro de Nóvoa Cavalcanti ou, o nascimento de um Bebê

Achei perdida esta crônica de mais de dois anos atrás que, agora relato como escrevi na época, com algumas correções necessárias:


Este blog não foi feito para registrar acontecimentos da minha vida, mas para passar experiências aos que estiverem na mesma situação possam usá-las e tirar as suas próprias conclusões. Por este motivo, pretendo descrever o nascimento do meu filho, Pedro de Nóvoa Cavalcanti, apenas como uma experiência a orientar um pai como eu, de primeira viagem, sem qualquer referência subjetiva e ilações de cunho pessoal.

A criança mais linda deste mundo, a mais amada e esperada, nasceu às 7:12h, com 3,2kg e 56cm de altura. Melhor, de comprimento. Os preparativos para a sua chegada começaram três dias antes, da forma mais consistente. Digo isto porque, como todos sabem, na hora que o "casal" sabe que "está grávido", os preparativos se iniciam, mas, o que conta mesmo são os três últimos dias ou a partir da última consulta neonatal, quando se marca a data do parto, se for cesariano.

Eu sabia tudo de gravidez e parto. Me inscrevi em três sites de bebês e recebia emails diários, um deles bastente extenso, que me deixava informado de tudo sobre a gravidez. Meu primeiro conselho: não saiba tudo de gravidez e parto, pois a pessoa fica paranóica, pensando nas doenças que a criança pode ter, o que pode acontecer com a mãe, etc. Tente fazer uma leitura superficial da gravidez, aprendendo somente o necessário e, principalmente, segundo conselho, quando qualquer pessoa vier falar sobre alguma desgraça relacionado à criança ou à gravidez, diga que você não quer saber ou, simplesmente, não a escute, pois você vai certamente relacionar o comentário à sua criança ou à sua companheira. E você vai ver que a quantidade destas pessoas é muito maior do que você imagina. Se possível, exclua a amarga do seu convívio, até nascer o rebento, ou para sempre, se possível.

Voltando ao assunto, mesmo que as malinhas da mãe e do bebê estivessem prontas há quinze dias, você somente começa a pensar no parto com a data marcada. No meu caso foi segunda-feira, que por um motivo irrisório, a Preta brigou com ela mesma. Digo isso porque não se pode retrucar em nenhum momento, pois, mesmo que se esboce uma reação, o primeiro pensamento que vem é a antecipação do parto e a preocupação que eventual clima pesado pode trazer ao nascimento da criança. Então fique calado, deixando a outra falar e, mesmo calado, não espere que a briga vá ser menor do que outras que você teve. Certamente vai ser pior e, pior ainda, sem você ter qualquer direito de ficar chateado, pois a prioridade sempre é o filho e, mais, nunca vi uma grávida perder a razão, mesmo que você esteja calado. Usando o dito popular, nestes casos, calado já está errado.

Três dias trabalhando e três longas noites sem dormir depois, chego, estraçalhado e nervoso, às vésperas do nascimento do bebê. Precisava dormir bem, afinal, o dia seguinte era o grande dia. Jantamos cedo, pois a médica havia marcado o parto para as seis horas da madrugada, horário esse que somente conhecia quando amanhecia nos bares em outras épocas. Não se pode comer muito, pois a Preta ia passar por uma cirurgia e eu ia, e fui, assistir o parto e tinha que me precaver contra os efeitos do excesso de comida.

Aliás, a decisão de assistir o parto é muito complexa e, como se verá abaixo, tem que ser muito bem pensada para pais, como eu, que são de primeira viagem, pois as cenas são fortes e requerem um organismo muito bem equilibrado. No meu caso, a decisão foi simples e rápida: a Preta decidiu! Na primeira consulta do prénatal, a médica me perguntou: Tu vais ver o parto? A Preta, imediatamente e com a singelesa das decisões ditatoriais, respondeu: Vai. 

Pronto, estava decidido. E não podia falar nada, pois, se "estávamos grávidos" e ela iria passar por uma cirurgia, porque eu não poderia simplesmente assistir o parto? A lógica é irrefutável, e a decisão foi menos dolorida quando a Preta bateu o martelo por mim. 

No que pese a minha atitude tragicômica, não me arrependi em nenhum momento em ter assistido e, conta a minha moral imaginária e ilusória, fui essencial no parto do Pedro!

Depois de chegarmos por volta das 6h da manhã na Maternidade Saúde da Criança, com horário militar ou de insones, como estávamos, fomos para o quarto e logo chegaram a minha mãe e os pais da Preta. Todos nervosos e apreensivos. Recebemos a visita pouco depois das médicas do parto, Dras. Janete e Lia, uma prima e outra ginecologista que cuidou da Preta durante toda a sua vida e deixou de se aposentar dos partos somente para ter no nosso rebento na mão. Benza Deus, em uma linguagem popular.

Levaram a Preta de maca, com uma feição de pânico e pedindo que eu a acompanhasse. O Dr. Altino foi atrás e eu correndo sem saber o que fazer.

Entramos, eu e o meu sogro, em um closet - sei lá como era o nome do local e também não vou me preocupar em relatar agora, pois estou escrevendo sentindo a aflição da época -, que estavam as roupas verdes para entrar na sala de cirurgia. O meu sogro, médico pediatra, logo se vestiu, sem se preocupar com nada, tirando a sua roupa e colocando aqueles macacões, toucas e umas pantufas rudimentares parecidas com as toucas próprias para os pés. Enfim, equipado com toda a indumentária verde com cara de seriado americano ao estilo de Plantão Médico.

Olhou para mim e disse: - cuidado que existe muito furto aqui. Ele levam tudo que tu deixas.

Quando baixei para olhar alguma coisa ou esconder algum pertence, o velho Altino desapareceu! Não sabia sequer por onde tinha saído! Pelo pouco de lucidez que me restava saí, resoluto, com minha armadura de lona verde e meu capacete para chuveiros, a ajudar minha amada no resgate do meu rebento, pela porta oposta a que tinha entrado! Mas absolutamente apavorado! Menos, porém, que o meu sogro!

Saí procurando, no centro cirúrgico, de porta em porta, e perguntando. Sorte que era antes das 7h da manhã, mas ainda encontrei alguém, com a mesma armadura, que me disse para sair e que não dei muita conversa e continuei procurando, sem mais perguntar. 

Encontrei o velho Altino barrado em uma porta pela pediatra da equipe da Dra. Janete e presenciei, com orgulho, a própria Dra. Janete dizendo com firmeza: - Pode deixar ele entrar! Ele já segurou mais crianças em parto que nunca vais pensar em segurar!

Entrei no vácuo do pediatra! Renovado e confiante! Confiança esta que em poucos segundo terminou quando a prima Lia olhou para mim e disse "cuidado com a bandeja", que era a de bisturis que estava ao meu largo, mesmo tendo a certeza que ela estava longe quando eu passei e que não havia qualquer descuido meu! Óbvio que mesmo assim, colei as nádegas na parede, com a câmera de fotografia até então inútil e esquecida que a Preta também me obrigou a entrar com ela.

Pediram para eu sair na hora da anestesia. Me chamaram quando passou o efeito inicial. Dei um breve cafuné no cabelo da Preta e colei de novo as costas na parede e deixei o Pediatra Altino, fora do serviço, fazer a quádrupla função de pediatra assistente, marido, avô e pai.

Estávamos na cabeça da Camila, quando a pediatra, Dra. Mariana, me olhou esquecido no fim da sala de parto, e me disse quase sussurrando: "venha aqui deste lado", chamando para ir aos pés da Preta.

Parti para o lado oposto, tentando que ninguém notasse a minha presença. E ninguém notou. Quando cheguei do lado da doutora, sempre encostado na parede, ela fez um sinal para a máquina de fotografias e comecei a fotografar freneticamente!

E saíu o moleque! Comprido, magro e lindo, mesmo envolto no sangue e no esbranquiçado da placenta! Não chorou logo, mas chorou depois... Contido... Mas que aplacou a aflição de todos da necessidade de chorar!

Doutora Lia, enquanto a Dra. Janete se preocupava com o fim do parto, levou o Pedro, bíblico, na cabeça da mãe para o primeiro beijo e a Preta, em um misto de alegria e preocupação, olhava e chorava com a criança.

De repente a pediatra Mariana recolhe o rebento e sai com pressa e o Pediatra visitante, Altino, sai correndo atrás! 

Bom, tinham dois, um deles avô e médico parteiro. Fiquei com a minha mulher! Ouvi taxativa uma voz de baixo: - "vai com o meu filho!" Ainda argumentei: - Teu pai está lá e vou ficar com você! Ela diz: - "vai agora ver o Pedro!"

Claro que fui! O Pedro estava ótimo! Tudo procedimento normal! Moleque lindo e saudável! Aliás, nunca vi o meu sogro tão feliz, segurando a criança com aquela máscara cirúrgica mal tirada do rosto e fazendo pose para a máquina fotográfica!

E, como disse no primeiro parágrafo, esta crônica é absolutamente impessoal e somente para o aprendizado dos demais pais de primeira viagem... mas meu filho é a criança mais linda do mundo!

sábado, 5 de outubro de 2013

A Imperfeição

Ouso dizer, afirmo e confirmo, que a beleza está na imperfeição. Nada é mais belo que algo imperfeito, ainda mais nestes tempos em que a busca espartaniana do perfeito está cada vez mais latente. 

Explico: Cada dia que passa as pessoas se exigem mais. Tenho que ter o corpo bonito, mais malhado, tenho que ser o melhor profissional, tenho que ser um bom pai, uma boa mãe, o melhor esportista, o primeiro da turma, da universidade, o melhor profissional, o mais bem sucedido, o esteticamente correto, o politicamente certo. O certo, nunca admitindo a pequena falha, por menor que seja.

Já escrevi algumas linhas tempos atrás por aqui acerca do politicamente correto e que, na maioria das vezes não é real e, quando é, torna as pessoas chatas, o que é imperdoável. Portanto, não vou chover no molhado.

Voltando ao tema, o amor ao imperfeito tem como constatação empírica dois exemplos, minhas paixões - no que pese existirem muitos outros e possivelmente gerarem um livro se decidir enumerá-los -: os vinhos e as mulheres.

Sou apenas um enófilo, mas nada mais enfadonho que um vinho estruturalmente perfeito e equilibrado. Para que serve um bom vinho, geralmente caro, se se sabe o que vai se esperar dele. O olor, a cor, a persistência e todas as demais características corretas e sem defeitos que o faz excelente, mas que, ao final, sabe-se excelente, porém, sem nenhuma surpresa.

Da mesma forma as mulheres. Vejo mulheres hoje usando de todos os artifícios para ficar mais bonitas. Uma busca incessante pela beleza que passa, invariavelmente, pela academia e pela anorexia. E, o que é pior, muitas vezes não é a sociedade, mas a própria mentalidade da era atual que diz que somente sendo magra e malhada é que a mulher vai ser bonita. Criamos um exército de mulheres padrões, iguais, com corpos espetacularmente certos que, se não se deve à malhação, se deve ao bisturi.

Não estou fazendo qualquer ode ao "embagulhamento" feminino, muito menos tirando o pão dos cirurgiões plásticos. Por favor, não interpretem mal. Durante esses alguns anos de blog, todos já devem saber que, se for para ficar feliz, sou o maior incentivador, desde pular de pára-quedas até fazer tatuagem na polinésia com dente de tubarão.

O que condeno é a imposição da sociedade da beleza padrão, perfeita e a qualquer custo.

Lembro de um artigo que li, há muitos anos atrás, em um jornal diário, do Paulo Cal, que era amigo de infância do meu pai, que o tema central era as celulites. Dizia ele, se a minha memória não falha virtude do tempo, que as mulheres sem celulites não possuem estórias para contar, pois passam os seus dias em academias  e se privam de diversos prazeres da vida em busca do corpo perfeito. As mulheres com celulites sim, te acompanham e pedem a sua caipirosca e vivem a vida, se bem entendi do artigo.

Não quero ser tão radical e também infirmar o artigo, pois se, quem quer que seja, curtir academia ou a perfeição, deve os seus objetivos perseguir, como um hedonismo saudável.

Mas, certamente, o perfeito não é o belo. O belo tem que ter algo de errado, de diferente, de surpresa. De surpreendente.

Como exemplo, conta a lenda que Diego Rivera, o marido promíscuo de Frida Kahlo, se apaixonou pelas marcas de acidente que ela possuía. Logo ele que era um pintor e que se exigia o perfeccionismo. Quem sou para discutir? Melhor, não discuto por convicção, pois por convicção o belo não estão no perfeito, mas na diferença e, principalmente, na alegria modesta da pessoa de se achar bela.

O vinho, como a mulher, tem que ter um quê de imperfeição, que os diferencia e que os fazem ímpar. Que nos surpreende e que nos faz amá-los. Amá-los não cegamente, muito menos por serem perfeitos, ao contrário, mas pelo fato de serem imperfeitos, como a condição humana.

E aí está a beleza da imperfeição, a surpresa e o fato de não ser comum, que torna as pessoas mais humanas e mais reais.

Da base.