quinta-feira, 26 de abril de 2012

O Novo Código Rural... Ops, digo, Florestal...


Acaba de ser aprovado, na Câmara dos Deputados, após alterações no Senado Federal, o novo Código Florestal. Após este passo, somente a sanção da Presidente Dilma.

Este novo Código seria mais apropriado se chamar de Código Rural, ante a influência e o profundo retrocesso nas normas ambientais que houve na sua aprovação. Aliás, após debates de doze anos - o Projeto foi apresentado em 1999 -, o texto de lei foi marcado pela disputa entre ambientalista e ruralistas. Na aprovação, a bancada ruralista teve vantagem em larga escala e ganhou a disputa.

Alguns pontos merecem especial atenção e deixam antever o retrocesso na legislação ambiental brasileira, como é o caso da possibilidade de diminuição da reserva de legal de 80% para 50%, nos casos em que o Estado possua mais de 65% de suas áreas como reservas ambientais - o atual Código possui dispositivo semelhante, mas com mais amarras - e a retirada da definição de área de preservação permanente - APP em topo de morro, permitindo, inclusive, a pecuária nestes locais. Estes apenas alguns exemplos, que une-se ao de considerar a APP como reserva legal, vedado no atual código, e a diminuição da faixa de matas ciliares e, em alguns casos, a própria desobrigação de se manter as matas que estão nas margens dos rios.

Somente para dar um exemplo do perigo que é esta aprovação, os desmoronamentos que existem todo ano no Rio de Janeiro, tendo este ano a catástrofe sido na Região das Serras - Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo - e ano passado em Angra dos Reis, com centenas de mortos, se deve, primordialmente, à retirada da vegetação dos topos dos morros. Ou seja, o novo Código Florestal, se sancionado pela Presidente da forma como está, incentivará outras catástrofes.

Posso enumerar também, o novo incentivo à impunidade da legislação brasileira: O novo Código dá anistia aos desmatadores, que poderão regularizar as suas áreas desmatadas de reserva legal e APP's, sem a recomposição, até julho de 2008, enquanto aqueles produtores que cumpriram com as leis ambientais, não desmatando e mantendo as suas reservas legais, não terão qualquer benefício. Pior, as terras dos desmatadores, pelo menos na Amazônia, terão maior valorização e valor de venda, pois já desmatadas, com maior capacidade de atividade produtiva, em detrimento do meio ambiente.

Mas dentro da minha indignação, talvez o maior absurdo na votação que acompanhei não tenha diretamente impactos ambientais. Não diretamente. Foi retirado do texto de lei a obrigatoriedade dos entes federativos de divulgar, na internet, o Cadastro Ambiental Rural - CAR dos produtores. Este cadastro, em resumo, contém todos os dados dos proprietários e da propriedade e, pelo texto que estava posto, os Órgãos ambientais deveriam divulgar para todos na rede mundial de computadores.

Os Deputados bradavam no plenário que era um desrespeito à propriedade privada e, pasmem, até mesmo à intimidade dos produtores, como um deputado que se utilizou da tribuna para justificar a retirada do texto com essa atecnia e teratologia jurídica. Não vou fazer os leitores perderem tempo lendo justificativas contra essas atrocidades, mas posso dizer, an passant, que juridicamente todo direito de propriedade não é absoluto, devendo ter sempre uma função social, e moralmente que todos possuem direito de fiscalizar as ofensas ao meio ambiente, não podendo o direito de um particular se sobrepor ao direito de toda a coletividade. 

Assisti a maior parte da sessão na Câmara. A defesa dos deputados à bancada ruralista e ao modelo tradicional e arcaico de produção, que ao invés de compatibilizar ao meio ambiente prefere o modelo capitalista feroz e desenfreado, me deixou perplexo, brandando desculpas furadas ou, algumas vezes, sem justificativa alguma, simplesmente requerendo a retirada do texto. No fim, ampla comemoração, não sem comparecer, mesmo após aprovado, diversos deputados justificando, cabisbaixos, a aprovação do que eu passo a chamar de Código Rural.

Não deixo de notar o conflito da aprovação deste Código com a Rio+20, a acontecer em pouco mais de um mês, com os olhos do mundo no Brasil.

Enfim, como se vê, bem melhor o Código antigo, o de 1967, mais avançado ambientalmente do que este de 2012.

Certamente o tempo vai cobrar, como sempre cobra, a afronta ao meio ambiente.

Da Base.

terça-feira, 24 de abril de 2012

O Centenário do Cinema Olympia




Um pouco esquecido nas redes sociais, mas comemorado com justiça nos meios alternativos e culturais, o Cinema Olympia faz 100 anos hoje. É o cinema mais antigo do País em atividade.

Famoso e festejado durante toda a sua existência, fazendo a alegria de adultos, mulheres e crianças, abastados e nem tanto, cultos e pops, sempre foi unanimidade e orgulho dos paraenses, ainda hoje. Sempre o mais luxuoso, com as melhores películas, comerciais ou não, e de vanguarda.

Mesmo tendo estas características, nos final dos anos noventa, o cinema começou a decair, passando por uma fase de crise de público, como em todo o cinema mundial. Até que, em 2006, o Cinema tentou fechar as portas, não ocorrendo pelo reconhecimento da Prefeitura de Belém, que o alugou transformando em centro cultural (para mais história: http://www.cinemaolympia.com.br/historia.html e http://espacomunicipalcineolympia.blogspot.com.br/). Deveria mesmo é tê-lo desapropriado e tombado como patrimônio histórico. Tudo bem. Pelo menos salvou o Olympia.

Personagem importante nesse contexto foi o Sr. Adalberto Augusto Affonso, o gerente que mais tempo permaneceu a frente do Cinema. Conta o sítio citado acima que foi incansável pela manutenção do Cinema e que sentia orgulho pela sua administração.

Este personagem é avô da Preta, no qual ouço muitas histórias nos almoços de domingo, desde a seriedade com que conduzia o cinema, até as traquinagens de seu filho Laércio Affonso, que por vezes o ajudava a cuidar da bilheteria ou da pequena venda de bombons e pipocas que possuía na entrada do cinema (assunto para outra postagem), venda esta que conheci e que fazia a minha alegria nas sessões.

E as memórias e a formação deste Cavalcanti não seria a mesma inexistindo o Olympia. Lembro que mesmo antes de chegar em Belém, durante as minhas férias de julho ou de dezembro, sempre corria para o Olympia ou o Cinema Palácio (que foi transformado em uma igreja há muitos anos). Sempre foi um programa inesquecível, com partida no ônibus, descendo na parada da Presidente Vargas na Praça da República e enfrentando a constante fila para entrar no cinema, filme e, na saída, o cachorro quente tradicional na Praça da República, bem ao lado do Olympia, com a companhia constante do meu primo, Maurício. Por muitas vezes, me aventurando sozinho, assistindo filmes sem conseguir cadeiras, escorado em uma de suas pilastras laterais ou sentado no chão.

Mais tarde, na adolescência, a brincadeira, a paixão, a formação da cultura e, posso dizer no meu caso, do caráter, nas esticadas após o cinema ou mesmo antes, no mundo que era, e ainda é, a Praça da República, na qual o Cinema Olympia é um coadjuvante merecedor de oscar.

Filme inesquecível? Claro, Titanic, de James Cameron, com Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, na qual passei metade do filme apaixonado e a outra metade aterrorizado pelas consequências do naufrágio, mascante também pelas confortáveis instalações do cinema.

Hoje, grande festa está acontecendo, sob o comando da Prefeitura de Belém e parceria do Governo do Estado, homenageando este Cinema que moldou a história e faz a lembrança de muitos que estão lendo, com merecidas homenagens, ao Olympia propriamente dito, Pedro Veriano, Adalberto Affonso e outros que contribuíram para a longevidade do Olympia e por tornar inesquecíveis aquelas poltronas vermelhas.


Da base, Belém, Pará.*

sexta-feira, 30 de março de 2012

Dom Melchor, 2001





Para comemorar o nosso apartamento novo, eu e a Preta decidimos abrir o festejado Dom Melchor, safra 2001.

Encorpado, não tanto quanto se esperaria de um vinho de 11 anos, com persistência e um bouquet inigualável. Um vinho muito bem estruturado, mas ainda assim surpreendente pelo seu retrogosto - acho essa linguagem de enófilos tão esnobe.

O que quero dizer é: um vinho tecnicamente certinho, mas ainda assim tem umas características que o diferencia, como o gosto de vinho que se mantém na boca, pelo cheiro e o tempo que passa no ar quando se abre o vinho, e o toque ácido que fica na ponta da língua. Mesmo com o tempo, consegue seu toque de suavidade.

Mas, de nada é o vinho sem o clima e a companhia e, neste quesito, posso dizer que o vinho ganhou o seu tom de inigualável para mim.

Mesmo sem móveis e por muito a se fazer, é um vinho inesquecível, em uma noite deliciosa. Ou é um vinho delicioso em uma noite inesquecível. Para a minha sorte, tanto faz.

Da base, Belém, Pará.

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Location:Av. Roberto Camelier,Belém,Brasil

quarta-feira, 28 de março de 2012

Millor Fernandes

Faleceu hoje o humorista Millor Fernandes, de falência múltipla dos órgãos, aos 88 anos.

Já sabia de quem se tratava, mas passei a conhecer e ler as suas publicaçōes a partir de uma grande amigo meu, Antônio Duval, fã do Millor, que inclusive deu o nome do humorista ao seu primogênito. Para mim, a vida passou a ser mais divertida e mais inteligente.

Criador do Pasquim, fez história na Revista Veja e no Jornal do Brasil, foi jornalista, dramaturgo e escritor. Foi fundamental na imprensa na época da ditadura militar.

Este pequeno espaço nunca vai ser suficiente para contar a história de Millor Fernandes, mesmo as simples passagens.

Em Belém, não sei se possui alguma ligação, mas choveu durante a madrugada toda e todo o dia.




Da base, Belém, Pará.
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terça-feira, 13 de março de 2012

Quadrinhas para um bebê



I

Ainda ontem nascia
econômico no choro do parto
A mãe determinando a minha companhia,
no ato!

Recebeu nome bíblico
e homenagem a escritor
Ainda que não fosse a intenção,
ficou com nome de doutor


II

Desde então a alegria,
pulando amiúde escorado
sorridente em um mundo de fantasia,
sedento por um mundo a ser desbravado

Relutante para dormir
rabugento ao acordar
meigo no carinho desajeitado,
preciso no pegar

O virtual desta nova era,
polegar enristado,
a tecnologia que quer conhecer
no passar do dedo despreocupado


III

Do engatinhar que não ia acontecer,
passou a fugir com destreza
buscando o desconhecido
com reclamação, sorriso e certeza


IV

Um viajante nato
no avião com desenvoltura
brinca e passeia no corredor
dorme com ternura

No primeiro carnaval um folião,
a cada dia uma fantasia,
um bebê com personalidade
a cidade maravilhosa assistia


V

Ano completo e a curiosidade não para
Tento guardar seus olhos na lembrança
o gargalhar e o balbuciar,
e a beleza das descobertas desta criança.

Da base, Belém, Pará, em homenagem ao dia 24 de março de 2012.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Politicamente correto

Me preocupa muito essa estória do politicamente correto. As pessoas certinhas, fazendo sempre o que é certo e execrando o errado, na perspectiva moralista de ser. É errado fumar, beber em excesso, tratar com falta de educação o próximo, direitos humanos, isto! os tão propalados direitos humanos, ser bom filho, bom pai, bom marido, etecetera, tudo para fazer o correto.

O interessante é notar que à esta política do correto, vem sempre a reboque o marketing pessoal. A estas pessoas a humildade não é uma característica, sempre fazendo apologia à sua corretude, ao seu jeito certinho de ser, divulgando o máximo possível para todos e, nesta época de mídias sociais, em todos os meios de informações possíveis.

Estas pessoas, a observação me mostra, que a carapuça acaba sempre quando está em jogo o seu interesse. Quando a discussão passa pelo direito dos outros em confronto com um interesse seu, vinga a máxima do “farinha pouca, o meu pirão primeiro”. São esses, sem exceções que eu tenha visto, os politicamente corretos dos primeiros anos deste milênio.

Uma parte desta classe, usa ainda a noção bíblica de livre arbítrio e acopla o nome de Jesus ou de Deus. Estes são os mais perigosos e pedantes. Digo sempre que, quando uma pessoa usa o nome de Jesus mais de duas vezes na mesma frase, pode se afastar que ele vai te enganar.

Os poucos que conseguem se afastar desta definição, as raras exceções, são simplesmente chatos.

Repudio, a cada dia que passa, mais veementemente, o politicamente correto e fico preocupado quando um se aproxima de mim, pois certamente é para me usar ou me enganar, ou mesmo me entediar.

Sou de uma época em que o exagero fazia parte da minha geração. A minha noção de livre arbítrio era o certo, o errado, e o resto, como conta a lenda que Cazuza disse uma vez ao seu pai.

O resto é o melhor. A própria palavra já choca e demonstra o que a pessoa é. O que sobrou, após ter sido deglutido, o marginal, o yuppie, o punk. Meus heróis são as duas lendas do que está a margem da sociedade, Cazuza, que dispensa comentários, e Rê Bordosa, a personagem de quadrinhos do Angeli, ambos mortos, ao estilo de Cid Vicious.

Não estou aqui para fazer uma apologia ao que está errado, ao mal ou ao fazer mal. Uma leitura mais detida do que disse acima, verificará que são três classes: o certo, o errado e o resto. O resto não é o errado. O resto não é classe do politicamente correto. Esta sim, está no errado, seja por sempre estar escondendo algo, seja por ser chato.

A pessoa precisa da imperfeição, do vício comedido, de algo que a torne mais humana. Como as mulheres: o que esperar daquela certinha, sem passado, com o corpo perfeito e que nunca se excede? O que esperar das mulheres sem celulites ou que não brincam? Elas podem até ser convenientes durante algum tempo, mas nunca serão companheiras, ou se tornarão apenas um troféu para os politicamente corretos, para voltar ao assunto.

Aliás, como mais uma forma contestadora, esta crônica, diferente do politicamente correto, não terá fim. Já disse o que queria: fim ao politicamente correto.

Acabou.

Da base, Belém, PA.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

Adega Pérola

Um dos bares mais tradicionais do Rio de Janeiro é o Adega Pérola, na Rua Siqueira Campos, próximo à estação de metrô Siqueira Campos.
O bar é conhecido pelas centenas de tira-gostos que possui, muitos deles expostos no balcão. A diversidade vai do tradicional e exótico rollmops, uma espécie de sardinha crua, marinada no azeite, ao tradicional bacalhau, passando por lula, truta, bolinhos, pastéis, etc.
Bebidas, as mais diversas, incluindo vinhos, uísques e o tradicional chopp da Brahma.
Frequentei muito a Adega Pérola, cuja existência remonta ao ano de 1957. Há alguns anos faleceu o dono, um lusitano não tão simpático, que dirigia a Adega com mão-de-ferro, mas que mantinha a qualidade de seus produtos.
Após a sua morte, a Adega passou por um período de declínio e de não tão boa qualidade. Cheguei a ouvir boatos, que não confirmei, de que a Adega Pérola iria fechar e de que os frequentadores estavam se reunindo para comprar o bar, na tentativa de salvá-lo, como um patrimônio do Rio de Janeiro.
Não sei o que aconteceu, mas é com grata satisfação que anuncio que a Adega Pérola está salva, com a mesma qualidade de sempre e com produtos diferenciados, inclusive estando expostas algumas cervejas artesanais, como a especial Colorado, e outras importadas.
Fiquei muito feliz em ver a Adega Pérola nesta quarta-feira de cinzas. Longa vida a Adega.




Do Rio de Janeiro, RJ.
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Location:R. Siqueira Campos,Rio de Janeiro,Brasil