quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Rave em Veneza



Hoje o Facebook sinalizou que faz exatamente 06 anos de uma das melhores festas da minha vida.

No ano de 2013 decidimos passar o carnaval em Veneza. Após passarmos o dia na Piazza San Marco, a praça central, admirando as fantasias superelaboradas típicas do carnaval local e ouvindo música clássica (podem acreditar, o carnaval em Veneza é feito com música clássica), voltamos de Vaporetto (ônibus marítimo), pelo Grande Canal, ao mais que agradável Palazzo Sant’Angelo, hotel que estávamos hospedado.

Cerca de 22 horas locais, como um Doge, logo decidi que não ia passar a minha noite de carnaval no hotel!

O hotel ficava a meio caminho da Piazza San Marco e o Mercado de Rialto e saímos vagando indefinido, sem a menor intenção de nos direcionarmos à San Marco e suas músicas clássicas e fantasias suntuosas.

Após cerca de vinte minutos, chegamos ao Campo Sant’Angelo. Os denominados “campos” italianos são áreas largas, hoje em dia calçadas com pedras históricas, podendo ter ou não uma fonte. Neste caso não tinha. O que tinha, na hora, era um palco de metal com um Deejay, várias barraquinhas ao redor do Campo, também de metal, cobertas e com balcões, vendendo os mais variados tipos bebidas e comidas, especialmente sanduíche grego, pretzel, vinho quente e o Aperol Spritz, drink a base de espumante e um bitter, que faço até hoje em casa, depois que conheci neste dia.

E muita, muita, neve. Esqueci de dizer que Veneza estava sob temperaturas negativas, tanto que na noite anterior teve tanta neve em que o horário de entrada do hotel foi limitado - e nós, desavisados, quase não conseguíamos entrar no hotel -, tendo tido uma enchente em Veneza, em que o mar subiu vários metros, inundando inclusive o hotel. Na verdade, a título de lembrança, foi um fenômeno mundial, com influência da lua cheia, em que o Ver-o-Peso também inundou, para uma referência paraense.

Retornando, era uma rave. Apesar de a única parte da rave que gosto é que as vendas de cervejas não têm filas, pois os frequentadores, em face dos psicotrópicos, preferem as barracas de água, o fato é que esta estava bem divertida! Era composta de jovens locais, italianos e europeus, fora do circuito turístico!

E as fantasias, longe da suntuosidade e dos motivos medievais das da Piazza San Marco, eram mais contemporâneas e sem muitas preocupações. Um exemplo da que mais gostei foi a de Bender Bending, o robô alcoólatra e drogado de Futurama, que estava perfeita e o usuário também estava no clima da personagem.

Mas realmente o ponto alto foi a chegada de um jesus cristo. Um jovem esquelético de cabelos grandes ou uma peruca perfeita, vestindo somente uma tanga, uma coroa de espinhos e umas botas felpudas (afinal, nem Jesus Cristo ia aguentar aquele frio negativo descalço) chegou correndo pelo meio da plateia e pulou como uma pluma no palco, sob a ovação de todos os presentes. Após uma pequena apresentação, ainda sob aplausos, assumiu as pickups e tocou mais música eletrônica.

Eu, mesmo distante dos jovens e do palco, bebi vinho quente, aperol spritz e me empanturrei com um sanduíche grego. Grande festa, simples, despretensiosa e barata – o copo (de plástico, claro) de vinho quente, custava dois euros, bem diferente da Piazza San Marco, em que uma taça vinho facilmente chegava aos dez. Depois, já na madrugada, ainda tentei um bar que ficava na parte posterior do palco, mas a minha estória era a rave.

Finda a festa, tínhamos que voltar para o hotel. O frio insistindo em atravessar o nosso casaco e o meu GPS mental retardado pelo pequeno excesso etílico. Partimos pelas ruelas históricas da ilha, passando por minúsculas pontes sobre os canais, em caminhos cada vez mais apertados, em que, cada vez mais, pareciam todos iguais e com um ar sombrio e deserto de uma cidade medieval. Chegamos, inclusive, a rodar em círculos, o que gerou certo desespero mas, enfim, em um momento de sobriedade, lembrei do caminho de volta.

Um grande carnaval, muito mais pela rave do Campo Sant’Angelo que pela suntuosidade da Piazza San Marco.


Da base.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

A Livraria, 2017

O filme trata de uma viúva de guerra que decide abrir uma pequena livraria em uma cidade do interior inglesa e a resistência do povoado aos livros. Interessante é o relacionamento da viúva com o ermitão da Cidade, que teria parado de sair de casa após a morte da esposa, Mr. Brundish.

Dramalhão premiado, claro, e inglês, de qualidade, se passa na Inglaterra de 1959, com grande elenco e especial atenção para a grande atuação e o diálogo entre Mr. Brundish e Ms. Gamat.

Para amantes de livros.

Acompanhem com gim-tônica.



Da base.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Fugindo


Fujo
No correr dos meus tênis
nos meus prazeres líquidos
na concentração do cozinhar
nos meus tragos ansiosos
no gato envolvendo a minha perna

A catarse sempre interrompida
a senhora Realidade entrando na sala
agora insiste na presença
logo eu que sempre fugi dela

E não permite esquecer do fim

Da base, em 10/02/2019.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

O Machado de Xangô


Após um final de semana sentimentalmente cansativo e uma segunda-feira de trabalho de volta de recesso judiciário, decidi ir ao bom e velho Cosanostra, que sempre posso ficar no balcão sem incômodos. Logo surgem os habitués do local. Primeiramente Romeuzito, com a sua simpatia peculiar e o seu perfume sempre em dia e, após, a esquadrilha da fumaça completa. Saímos pra fumar e eu, sempre ligado no celular, já um pouco mais relaxado e tranquilo.

Fugi deles e voltei pro balcão. Queria a minha introspecção solitária de franciscano enclausurado, ainda que conectado nas redes sociais da vida. Sem comer desde o almoço do dia anterior, pensei em pedir um tira-gosto quando, vejo passar na frente do Cosa o Edney, voltando pra casa. Claro que o chamei e sentamos na frente para termos mais liberdade pra fumar.

Conversa sempre deliciosa. Cara incrível e um grande amigo, fiel e parceiro, fizemos piadas sobre as nossas vidas perdidas, arte (a arte é inútil, como diria Oscar Wilde no prefácio de Dorian Grey, mas mesmo assim, eu e Edney, concordávamos que vivíamos dela, de certa forma) e conversamos muito sobre desilusões – ou ilusões – amorosas.

No meio da conversa, apareceu um jovem nervoso vendendo um chaveiro. Aparentava não mais que 26 anos, gaguejava. Estava vestido com uma camisa branca amarrotada de mangas compridas e velha, com os punhos enrolados até o meio do antebraço, calças jeans clara e surrada e, o que me chamou atenção, umas sandálias havaianas brancas, que mal cabiam no pé, fazendo com que os dedões ficassem pra fora da sandália, encostados no chão.

Dizia ele, com a voz embargada e pronunciando as palavras pausadamente como quem não conseguisse concatenar as ideias, que já vendeu todos os chaveiros que ele mesmo produziu e que somente faltava este, que estava espalmado na sua mão e que venderia por qualquer valor.

No que pese a figura amena do jovem, logo veio algo que tensionou minhas costas e, particularmente, a minha omoplata. Senti que estava em uma bolha, que me puxava as energias e me deixava apreensivo.

Edney logo falou para o jovem que não queria o chaveiro, mas queria ajudá-lo e perguntou como seria. O Jovem, muito constrangido e gaguejando disse, dando uma pausa de alguns segundos, que seria com dinheiro. Logo, o meu amigo puxou uma nota de vinte reais e deu para o jovem, que se virou pra mim, ainda que tivesse sido o Edney que tivesse dado o dinheiro, tentando me dar o chaveiro espalmado na sua mão e reafirmando que ele mesmo tinha feito. O Edney puxou a atenção pra si e disse pra ele levar o chaveiro e vender pra outro, que talvez conseguisse algum valor.

Instantaneamente toda a carga que pesava sobre as minhas costas foi embora, ficando apenas um resquício que ainda paira agora.

Com o jovem longe, Edney me fala que aprendeu a respeitar as criaturas da noite e me pergunta se eu sei o que era o chaveiro. Digo que não e ele me fala que é o machado de xangô.

Da base, em 22/01/2019.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

Insônia

Ainda estou com sono, mas não consigo dormir. Após acabar o segundo cigarro, furtado do meu cunhado, constato que ainda não é o dia para eu parar de fumar. Deixo um bilhete no sofá, mesmo sabendo que ninguém vai ler. 


Parto da vista do mar, procurando cigarros. Subo a Miguel Lemos e desço a Nossa Senhora de Copacabana. Paro no primeiro bar a esquerda, como manda a tradição. Stalos é o nome. 


Bar lotado, apenas vaga no balcão, que é melhor, pois minhas costas doem, meio tensão de um dia difícil, meio resposta de uma vida toda sentado.


Compro um chopp e, após dar um trago, vontade de escrever. Difícil escrever no celular, preciso do meu computador. Um jovem de cabelos descoloridos fica me olhando e me analisando, enquanto outro jovem lhe acaricia as costas. Talvez seja a minha camisa do Morrissey que tenha chamado a atenção.


Penso em antigos amores platônicos, enquanto o chopp esquenta mais que o normal. O que ela estará fazendo? Como ela está depois de tantos anos? Espero que esteja bem, dormindo neste momento, com um sono descansado e feliz. Procuro um local no balcão que esteja refrigerado, para que o chopp não esquente tão rapidamente.


No momento em que uma espanhola bêbada pede uma pizza sobre os meus ombros, pensei em Bukowski dizendo que o álcool é uma sinfonia, que você bebe para ir pro céu enquanto está sofrendo ou sendo pressionado. Algo assim.


Espero pra receber outro chopp das atendentes, diversas, que não me olham. Resolvo chamar e me atendem. Muitos jovens e um ritmo frenético. Somente eu centrado no celular, escrevendo, com a vista dos doces embaçados pelas bordas do celular no balcão.


Pensamentos existencialistas pululam. O que será daqui pra frente? Penso no meu moleque e no meu amor clichê por ele. O que de mais importante existe.


Outra vez Bukowski, O Amor é um Cão dos Diabos.


Acendo outro cigarro. Bateria acabando. Guardo o celular, economizando na esperança que alguém ligue, mesmo sabendo que não vai acontecer.


Copacabana não dorme. Nem eu.






Rio de Janeiro. Copacabana.



terça-feira, 1 de janeiro de 2019

Com o Mar por Meio, 2017

Quem me conhece sabe que os meus escritores preferidos são Jorge Amado e Saramago. E o melhor, eram amigos.

Neste livro, de fácil leitura, Paloma Amado (isto mesmo, a filha e guardiã das obras), compilou diversas cartas entre os dois gênios, muitas delas cedidas gentilmente (digo gentilmente, pois nós podemos ter acesso a tais cartas) por Pilar, a esposa de Saramago, relatando as suas confidências e, até mesmo, algumas fragilidades, como se fossem mortais.

O ponto alto das trocas de confidências é a discussão acerca da injustiça do prêmio Nobel de literatura para a língua portuguesa e, mais, da injustiça de Jorge Amado nunca ter recebido o prêmio, ainda mais para o idioma mais bonito que conheço (assunto para outra postagem).

Não vou publicar, desta vez, a capa do livro. Vou publicar uma foto que gosto muito, na frente da Fundação Casa de Jorge Amado, foto esta que, inclusive, está no meu escritório.


Feliz de, no primeiro dia do ano, falar de Jorge Amado e Saramago. Poderia passar horas escrevendo.

Leiam com um bom alentejano. Merece.

Um grande ano a todos e que se renovem as energias para 2019.

Rio de Janeiro, Copacabana, olhando o mar que está no meio.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Resolução de Ano Novo

Não quero emagrecer

Não quero ler mais, nem menos

Não quero viajar mais

Não quero ter mais amigos


A minha resolução para o ano

É me afastar de pessoas carregadas

Que amam mal

Que mandam mensagens que fazem o celular pesar quilos

Pessoas que fazem de um problema pequeno, uma tragédia

e logo depois elas mesmas surgem como solução!

Que falam mal dos outros,

sem olhar pra si

Que sugam a nossa alma

Cansam e carregam

Inveja, hipocrisia, pavoneamento

Reclamações sem soluções

ou sem nunca tentar solução


Quero pessoas alegres

Papos molhados pela madrugada

Assuntos que não levam a nada

a não ser gargalhadas 

Que comemoram a vida

Que não precisam ter razão

De sorriso frouxo e alma lavada

Que não se preocupam com a vida dos outros,

exceto na amizade

Quero dias de sol

ou que os invernos sejam transformados em primavera


Não quero gritos

quero falas amenas

de preferência sussurros no ouvido

Quero mentiras sinceras

quando a verdade for dolorida

Aceito a hipocrisia branda

quando não se puder ser realista 

Aliás, não quero choque de realidade

quero conversas suaves


Quero amor

Compreensão

Amizade

E leveza


Principalmente leveza


Está decretado

No novo ano

Quero pessoas leves ao lado.


Da base.