quarta-feira, 15 de junho de 2011

A reinvenção da Fox Vídeo

Lugar genuinamente paraense, tanto quanto a Estação das Docas e a Casa das Onze Janelas, é a Fox Vídeo. Locadora de filmes e documentários, onde se pode encontrar não apenas lançamentos de sucessos, como em muitas locadoras, mas também títulos clássicos e raros, o que a torna uma locadora que não deve a nenhuma outra do  Brasil.

Com a recente crise das locadoras, decorrente da venda maciça de filmes piratas, muitos estabelecimentos foram fechados, inclusive as pequenas locadoras de bairros, que não existem mais em Belém, como foi o caso da locadora de meu tio e da que ficava na esquina de casa, a Premiere, que eu compareci diariamente durante toda a sua existência. Aliás, digno de memória foi o fechamento de uma filial da gigante multinacional Blockbuster, que ficava na esquina das ruas Alcindo Cacela com a Conselheiro Furtado, em decorrência dessa prática criminosa.

A Fox Vídeo sobreviveu, não incólume, pois fechou as portas da sua filial da rua João Balbi, mas ainda assim sobreviveu.  A receita foi se reinventar, passando a abrigar, também, a venda de títulos, usados e novos, e uma livraria, tão rara  nestas terras paraoaras depois da escassez da livraria Jinkings. Aliás, quanto à livraria, possui bons e diversificados títulos, que vale a pena uma visita.

Na Fox da rua Doutor Moraes, há também o café Fox, excelente, que serve desde lanches sofisticados, com  sanduíches, salgados, bebidas variadas e doces, até alguns poucos pratos. Na mesma filial da Doutor Moraes há também uma pequena loja, que vende camisetas, almofadas, caixas e os mais variados produtos com temas ligados ao cinema, além de CD's de música, com títulos que não são facilmente encontrados, inclusive uma das melhores diversidades de cantores paraenses que já vi. 

Gosto de passar no local para tomar um chocolate gelado, feito em uma máquina com gelo, com bastante calda de chocolate, que faz a alegria de qualquer criança, pequena ou grande, como o escritor.

Que a Fox seja para sempre.

Da Base, Belém, Pará.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Bardalo

Descobri domingo, com tristeza, que fechou o Bardalo. Para os que não conhecem, Bardalo é a contração do nome "Bar do Seu Bordalo", que ficava localizado na Avenida Bernal do Couto, entre as Don's Romualdo's, de Seixas e Coelho, comandado pelo português legítimo, tunante e sócio do Grêmio Literário Português, Teófilo Bordalo de Souza.

Primeiro a figura, que veio para o Brasil na adolescência, tentar a vida, passando por todos os tipos de profissão que o lusitano passa: feirante, padeiro, vindo a culminar como dono de bar. O mais famoso que teve ficava na João Balbi com a Generalíssimo, depois mudando de endereço para onde funcionava atualmente, o único que eu conheci.

Muito simpático e alegre, possui uma memória invejável, mesmo do alto de seus oitenta e cinco anos, contando passagens da vida política e social, de épocas remotas, que não vi ninguém se lembrar. Possui conhecimento de todas as pessoas de Belém, conta detalhes dos acontecimentos e de suas vidas íntimas. A alegria é peculiar, nunca o vi irritado ou zangado, sempre fazendo uma brincadeira, geralmente de duplo sentido, com os frequentadores do bar.

Me lembro sempre de sua figura tomando cerveja com os clientes, chorando como um garoto quando ouvia o refrão "... bandeira branca amor, não posso mais...." e, quando chegava nove e meia da noite , olhava para os clientes e dizia, com o sotaque português: "vamos, está na hora de eu ir dormir...".

Aliás, chamar de clientes os frequentadores é injusto, pois são todos amigos. A mim, creio que tem um carinho especial. Eu tenho por ele.

Durante muito tempo o bar e o seu Bordalo fizeram parte da minha vida. Quando queria me divertir era para lá que ia, mesmo em dias da semana. Quando algo me chateava, ía no fim da tarde ao Bardalo, ouvir as histórias da política baratista ou do começo da vida pública do Jáder Barbalho, sempre entremeadas com brincadeiras e uma cerveja, as vezes com um  queijo cuia. Não gostava do sábado antes do almoço, que era o dia de todos frequentarem. Gostava da semana, com poucos, quando podia ouvir o Teófilo, como alguns o chamavam.

O inusitado foi quando descobri que o seu Bordalo se lembrava do dia em que eu nasci. Mesmo que por coincidência tenha passado a frequentar o bar, apenas por ser perto da casa da minha mãe, descobri, não sei porque, que no dia em que nasci o papai passou pelo bar, ainda na João Balbi, viu uma cerveja antártica e perguntou se tinha no local, pois na época em poucos lugares de Belém vendia a marca de cerveja preferida do papai. "Tem tanta que está até vendendo!", deve ter respondido o Teófilo, uma de suas brincadeiras preferidas. Foi aí que teve o meu primeiro "mijo".

Contavam, seu Bordalo e Papai, que neste dia se conheceram e, muitos anos depois, se reencontraram, já no bar novo, quando o papai tinha saído para comprar jornal e passou pela frente do bar. Não tenho certeza, mas acho que me lembro desse dia, quando moleque desci do apartamento que morava com o papai e mamãe  para ver porque a compra do jornal estava demorando e encontrei os dois conversando. Eu, por coincidência do destino ou por simplesmente meus pais terem comprado um apartamento próximo, conheci, anos depois, o seu Bordalo.

Parei há algum tempo de frequentar o Bardalo, em busca de locais mais sofisticados, o que hoje me arrependo, pois não abrirá mais e, mesmo que ainda continue ouvindo as estórias contadas pelo Seu Bordalo, quando eventualmente encontrá-lo, não será acompanhado pela cerveja mais ou menos gelada, no balcão, onde sempre via a máquina registradora da década de quarenta ou cinquenta, capenga, mas ainda funcionando e, certamente, não terá a mesma alegria que possuía.

As estórias do Bar do Seu Bordalo são tantas que outras vezes trarei para complementar as minhas memórias. O Bardalo é um dos últimos da geração de bares comandados por portugueses por aqui, restando, pelo que me lembro, somente o Paladino, com o tradicional queijo cuia, na esquina da Oliveira Belo com a Generalíssimo Deodoro.

Da base, Belém, Pará.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte - parte 1, Em Orlando e a Cerveja

Acabei de ver Harry Potter e as Relíquias da Morte - Parte 1. Fantástico, a altura dos filmes dos fãs do Harry Potter e, creio, um dos melhores da série.

Neste filme, Valdemort toma conta do Ministério da Magia e Harry, Hermione e Ronny passam a ser perseguidos como inimigos. O filme, como seus fãs, está mais adulto, inclusive vivendo dramas de adolescentes, como a insegurança de Ronny quanto ao seu namoro com Hermione. A película, mesmo com mais de duas horas, deixa um gosto de quero mais, com a impaciência para ver a segunda parte.

E, por falar em Harry Potter, também está à sua altura o Parque do Harry Potter, que fica dentro do parque dos estúdios Universal, em Orlando, na Flórida, EUA.

Confesso, quando decidi ir aos Isteites, não me saía da cabeça conhecer o Parque do Harry Potter. Tanto que, quando cheguei no Parque dos Estúdios Universal, me dirigi logo à réplica de Hogworts, enfrentando, claro, ainda mais na época do réveillon, mais de duas horas de fila

Mas, ainda com a fila, descrever a sensação de entrar no Parque é impossível, ante a fidelidade com os filmes da série. Lá estavam a Loja do Olivares, vendendo as varinhas mágicas do Harry e de outros, ou mesmo a sua, que lhe vai escolher, o castelo de Hogworts, a montanha russa do Hipogriffo e a taberna, entre outros. Vende-se ainda, nas ruas, a cerveja amanteigada, que é um frozen de chocolate muito bom, sem álcool. E tudo de uma forma mágica.


Falando em cerveja, a taberna nada mais é que uma lanchonete, estilo fast-food sofisticado, em que as comidas são boas. Somente boas.

Mas não se desestimule, coma na taberna, não perca esta oportunidade, inclusive se tiver dentes fortes e força de vontade, peça uma daquelas coxas gigantes de peru, que é tradição norte-americana, comendo como homem das cavernas, que possuem um gosto único e peculiar.


Mas o que não se deve deixar de fazer é tomar a cerveja de Hogworts na taberna. Na saída da taberna tem um bar, com uma grande cabeça de javali pendurada na parede, que se move como se estivesse vivo. No local existem várias espécies de cerveja, como a heinekken, budwaiser, budlight, etc. Não peça nenhuma delas, peça a artesanal, aquela que no manche da chopeira que sai a cerveja tenha a esfinge do javali.


Impossível não gostar do filme, do parque e da cerveja.

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terça-feira, 10 de maio de 2011

Caim, de José Saramago.

Após algum tempo sem postagens, por falta de tempo e mesmo de inspiração, retorno para indicar o livro do título, do Nobel de Literatura de 1998.

José Saramago, escritor português que passou seus últimos dias na Ilha de Lanzarote, no Arquipélago das Canárias, lançou este livro no ano de 2009, que chegou ao Brasil pela Companhia das Letras, sendo mantido em sua escrita original, pelo menos até a quinta reimpressão da primeira edição, a que eu li, que torna o livro ainda mais interessante.

O livro conta a estória de Caim que, após ter matado Abel e ter sido castigado por deus a vagar pelo mundo com uma cicatriz na testa, passa a transitar entre presentes e futuros paralelos, como é o caso dos episódios bíblicos da destruição de Sodoma e Gomorra, da adoração do bezerro de ouro aos pés do Monte Sinai, da expulsão de Adão e Eva do Paraíso, da própria morte de Abel e, mesmo, da Arca de Noé.

Nestas passagens, com uma narrativa singular, em que se predominam as vírgulas, minimizando a importância dos pontos, parágrafos ou não, sempre grifando "deus" com "d" minúsculo, Caim se torna, antes de um vilão, uma vítima da ira celestial, o que o faz contestador dos desígnios divinos, com argumentações e reflexões sobre os atos de deus.

É um Saramago, rebelde e argumentativo, como me parecia ser quando via as suas entrevistas, bem apropriado para o meu momento.

Da base, Belém, PA.



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terça-feira, 5 de abril de 2011

O Super-homem e a Kryptonita

No sofá curto, olho para o super-homem deitado na cama alta ao meu lado. Há um ano, o super-herói chegou com a notícia de uma dor forte no ouvido, um pouco depois do ano novo, um pouco depois de passar o Natal com a gente, como não ocorria em muitos anos. Um natal divertido, como era o herói, que hoje parece uma despedida.

Descoberta, era a kryptonita, que foi dominando o seu corpo traiçoeiramente. Primeiro, depois de seis meses, havia sido banida. Três meses após, tinha voltado.

E agora, mais quatro meses, o super-homem não possui mais qualquer sombra daquele atleta que fazia musculação quando poucos falavam neste esporte. Pedalava uma caloi barraforte todo dia às cinco horas da manhã. Dieta de segunda a sexta, com peixes e salada, para manter a saúde e a beleza.

Vaidoso, alto e atlético, se apresentava como boêmio aos que não sabiam este lado de cuidados com a estética e bem estar, o que conquistava todos, principalmente as mulheres, muitas, durante os finais de semana exagerados e noitadas sem fim, como um Dorian Gray.

Vindo para dormir com ele hoje, arrumando a mochila, coloco o uísque no copo, pensando que não era este o que ele gostava e os que, na minha infância, via na caixa constante na biblioteca.

Os dois Cavaleiros da Esperança que vinham salvá-lo, o abandonaram. Um pela distância, alienígena, talvez onde o super-homem deveria estar, com a possibilidade da salvação. O outro, próximo, conhecido, do meu convívio, com o argumento que era terminal, não atende o telefone, também o abandonou. Esperamos amanhã uma amazonas, para o milagre. Sem muitas esperanças.

Vou no banheiro, volto e ele está de olhos abertos. Parece que está apenas adoentado, como há um ano atrás. Falo com ele em vão. Não responde, mas parece que sabe o que está passando em volta.

O super-homem não é mais sombra do que foi. Quando acorda, apenas o olhar no vazio e eu, nesta madrugada, coloco o basquete na tv tentando alguma atenção dele, com saudades do neto de doze dias que o herói não vai conhecer.

Sinto os olhos molhados e um soluço preso na garganta e tento pensar que o super-homem ainda é o mesmo, quando ouço, repentinamente, o mesmo ronco forte e sonoro, sua característica, que ouvia quando era criança e dormia no quarto dele junto com minha mãe e minhas irmãs, com o sentimento de segurança que somente este aparente super-homem podia proporcionar.

Da base, Belém, Pará.


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sexta-feira, 1 de abril de 2011

Madrid, Plaza Mayor e Presunto

Assisti agora o programa "Comidas Exóticas", no canal Discovery T&L, sobre comidas Madrilenhas. Em artigo anterior já havia escrito que Madrid era uma das minhas cidades prediletas. Digo mais agora, me encanta, como dizem os espanhóis, a Plaza Mayor e os seus arredores, e por isso cito o programa, pois mais da metade passou neste lugar.

A Plaza Mayor, atração imperdível em Madrid, cuja origem remonta ao Século XV, nasceu como um mercado e foi palco de guerras, queimas de bruxas e até mesmo das primeiras touradas. Situa-se no centro da Capital e hoje é palco de restaurantes e de bares de tapas, dentre algumas pequenas lojas e até mesmo poucos hotéis. No programa, houve a referência de alguns lugares que visitei e que aconselho a visita, além, obviamente, da própria Plaza como passeio e centro turístico.

Merece referência neste blog, o Restaurante do Botín, que é o restaurante mais antigo do mundo, com mais de trezentos anos de existência. Contudo, nas duas vezes que tentei ir, o restaurante necessitava de reservas, que demandaria algum tempo de preparação e eu não sabia. Por este motivo, fui no restaurante ao lado, também na Plaza Mayor, o Las Cuevas de Luíz Candelas (www.lascuevasdeluiscandelas.com), que possui uma aparência, e é, de restaurante de época, com garçons vestidos à caráter e comida típica espanhola. Não recordo o que comi, mas recordo que o ponto alto foi um grupo de jovens que apareceu no local, com trajes típicos de trovadores medievais, tocando tambor, violão e algo como um pequeno bandolim com aspecto antigo, cantando e tocando músicas flamencas com ares da idade média e, quando descobriu que nós éramos brasileiros, ensaiou uma desajeitada "garota de Ipanema" em espanhol. Muito bom, com gorjeta, é claro.


Também é ponto alto da Plaza Mayor e de seus arredores os restaurantes de Tapas. Tapas, para a cultura culinária espanhola, é tão importante quanto a feijoada para o brasileiro. Nada mais são que os nossos famosos tira-gostos ou os acepipes portugueses, que podem ser consumidos a qualquer hora e mesmo sem bebida alcoólica mas, a melhor forma de curtí-los é do horário 17h às 21h. (os espanhóis almoçam cedo e jantam tarde), acompanhados do vinho, do brandy ou da cerveja de sua preferência. Na Plaza, e em toda a Espanha, se encontram vários bares e restaurantes servindo estes petiscos, que variam de frutos do mar, tortillas de batatas, pintxos e até iguarias como presuntos das mais variadas formas. Os restaurantes e bares de dentro da Plaza Mayor são bons e pitorescos, ainda mais para observar o movimento, mas se quiser apreciar o sabor e o ambiente de um bar de tapas, tente se embrenhar nas vielas das cercanias, que possuem iguarias incríveis e maior diversificação.

E por falar em iguaria e diversificação, dentro da Plaza Mayor possui o Museo del Jamón, que é uma cadeia de lanchonetes cuja atração principal é o jamón, que nada mais é que presunto, não este que conhecemos no Brasil, mas algo no formato e apresentação do presunto de Parma. Esta rede possui em toda Madrid e, inclusive, vi uma franquia na Argentina uma vez, mas nada comparável ao espanhol. A Preta, quando acordávamos, ia logo correndo ao Museo e pedia o chiquito de jamón, que é um pãozinho que aqui chamávamos de salário mínimo, com o presunto, acompanhado de café-com-leite. Mas gosto mesmo do jamón como tapa, acompanhado do vinho, da cerveja ou do brandi, o cognac espanhol.  Por toda a loja ficam pendurados os jamóns, e com as patas, que indicam a procedência e a qualidade do presunto. Os mais famosos e apreciados são os jamóns ibéricos, cujo pata negra é considerado o melhor, e mais caro também. Provem, é gastronomicamente e culturalmente imperdível.

Estas são algumas atrações da Plaza Mayor.

Da base, Belém, Pará, Brasil.

domingo, 27 de março de 2011

Pedro de Nóvoa Cavalcanti ou, o nascimento de um Bebê

Achei perdida esta crônica de mais de dois anos atrás que, agora relato como escrevi na época, com algumas correções necessárias:

Este blog não foi feito para registrar acontecimentos da minha vida, mas para passar experiências aos que estiverem na mesma situação possam usá-las e tirar as suas próprias conclusões. Por este motivo, pretendo descrever o nascimento do meu filho, Pedro de Nóvoa Cavalcanti, apenas como uma experiência a orientar um pai como eu, de primeira viagem, sem qualquer referência subjetiva e ilações de cunho pessoal.

A criança mais linda deste mundo, a mais amada e esperada, nasceu às 7:12h, com 3,2kg e 56cm de altura. Melhor, de comprimento. Os preparativos para a sua chegada começaram três dias antes, da forma mais consistente. Digo isto porque, como todos sabem, na hora que o "casal" sabe que "está grávido", os preparativos se iniciam, mas, o que conta mesmo são os três últimos dias ou a partir da última consulta neonatal, quando se marca a data do parto, se for cesariano.

Eu sabia tudo de gravidez e parto. Me inscrevi em três sites de bebês e recebia emails diários, um deles bastente extenso, que me deixava informado de tudo sobre a gravidez. Meu primeiro conselho: não saiba tudo de gravidez e parto, pois a pessoa fica paranóica, pensando nas doenças que a criança pode ter, o que pode acontecer com a mãe, etc. Tente fazer uma leitura superficial da gravidez, aprendendo somente o necessário e, principalmente, segundo conselho, quando qualquer pessoa vier falar sobre alguma desgraça relacionado à criança ou à gravidez, diga que você não quer saber ou, simplesmente, não a escute, pois você vai certamente relacionar o comentário à sua criança ou à sua companheira. E você vai ver que a quantidade destas pessoas é muito maior do que você imagina. Se possível, exclua a amarga do seu convívio, até nascer o rebento, ou para sempre, se possível.

Voltando ao assunto, mesmo que as malinhas da mãe e do bebê estivessem prontas há quinze dias, você somente começa a pensar no parto com a data marcada. No meu caso foi segunda-feira, que por um motivo irrisório, a Preta brigou com ela mesma. Digo isso porque não se pode retrucar em nenhum momento, pois, mesmo que se esboce uma reação, o primeiro pensamento que vem é a antecipação do parto e a preocupação que eventual clima pesado pode trazer ao nascimento da criança. Então fique calado, deixando a outra falar e, mesmo calado, não espere que a briga vá ser menor do que outras que você teve. Certamente vai ser pior e, pior ainda, sem você ter qualquer direito de ficar chateado, pois a prioridade sempre é o filho e, mais, nunca vi uma grávida perder a razão, mesmo que você esteja calado. Usando o dito popular, nestes casos, calado já está errado.

Três dias trabalhando e três longas noites sem dormir depois, chego, estraçalhado e nervoso, às vésperas do nascimento do bebê. Precisava dormir bem, afinal, o dia seguinte era o grande dia. Jantamos cedo, pois a médica havia marcado o parto para as seis horas da madrugada, horário esse que somente conhecia quando amanhecia nos bares em outras épocas. Não se pode comer muito, pois a Preta ia passar por uma cirurgia e eu ia, e fui, assistir o parto e tinha que me precaver contra os efeitos do excesso de comida.

Aliás, a decisão de assistir o parto é muito complexa e, como se verá abaixo, tem que ser muito bem pensada para pais, como eu, que são de primeira viagem, pois as cenas são fortes e requerem um organismo muito bem equilibrado. No meu caso, a decisão foi simples e rápida: a Preta decidiu! Na primeira consulta do prénatal, a médica me perguntou: Tu vais ver o parto? A Preta, imediatamente e com a singelesa das decisões ditatoriais, respondeu: Vai. 

Pronto, estava decidido. E não podia falar nada, pois, se "estávamos grávidos" e ela iria passar por uma cirurgia, porque eu não poderia simplesmente assistir o parto? A lógica é irrefutável, e a decisão foi menos dolorida quando a Preta bateu o martelo por mim. 

No que pese a minha atitude tragicômica, não me arrependi em nenhum momento em ter assistido e, conta a minha moral imaginária e ilusória, fui essencial no parto do Pedro!

Depois de chegarmos por volta das 6h da manhã na Maternidade Saúde da Criança, com horário militar ou de insones, como estávamos, fomos para o quarto e logo chegaram a minha mãe e os pais da Preta. Todos nervosos e apreensivos. Recebemos a visita pouco depois das médicas do parto, Dras. Janete e Lia, uma prima e outra ginecologista que cuidou da Preta durante toda a sua vida e deixou de se aposentar dos partos somente para ter no nosso rebento na mão. Benza Deus, em uma linguagem popular.

Levaram a Preta de maca, com uma feição de pânico e pedindo que eu a acompanhasse. O Dr. Altino foi atrás e eu correndo sem saber o que fazer.

Entramos, eu e o meu sogro, em um closet - sei lá como era o nome do local e também não vou me preocupar em relatar agora, pois estou escrevendo sentindo a aflição da época -, que estavam as roupas verdes para entrar na sala de cirurgia. O meu sogro, médico pediatra, logo se vestiu, sem se preocupar com nada, tirando a sua roupa e colocando aqueles macacões, toucas e umas pantufas rudimentares parecidas com as toucas próprias para os pés. Enfim, equipado com toda a indumentária verde com cara de seriado americano ao estilo de Plantão Médico.

Olhou para mim e disse: - cuidado que existe muito furto aqui. Ele levam tudo que tu deixas.

Quando baixei para olhar alguma coisa ou esconder algum pertence, o velho Altino desapareceu! Não sabia sequer por onde tinha saído! Pelo pouco de lucidez que me restava saí, resoluto, com minha armadura de lona verde e meu capacete para chuveiros, a ajudar minha amada no resgate do meu rebento, pela porta oposta a que tinha entrado! Mas absolutamente apavorado! Menos, porém, que o meu sogro!

Saí procurando, no centro cirúrgico, de porta em porta, e perguntando. Sorte que era antes das 7h da manhã, mas ainda encontrei alguém, com a mesma armadura, que me disse para sair e que não dei muita conversa e continuei procurando, sem mais perguntar. 

Encontrei o velho Altino barrado em uma porta pela pediatra da equipe da Dra. Janete e presenciei, com orgulho, a própria Dra. Janete dizendo com firmeza: - Pode deixar ele entrar! Ele já segurou mais crianças em parto que nunca vais pensar em segurar!

Entrei no vácuo do pediatra! Renovado e confiante! Confiança esta que em poucos segundo terminou quando a prima Lia olhou para mim e disse "cuidado com a bandeja", que era a de bisturis que estava ao meu largo, mesmo tendo a certeza que ela estava longe quando eu passei e que não havia qualquer descuido meu! Óbvio que mesmo assim, colei as nádegas na parede, com a câmera de fotografia até então inútil e esquecida que a Preta também me obrigou a entrar com ela.

Pediram para eu sair na hora da anestesia. Me chamaram quando passou o efeito inicial. Dei um breve cafuné no cabelo da Preta e colei de novo as costas na parede e deixei o Pediatra Altino, fora do serviço, fazer a quádrupla função de pediatra assistente, marido, avô e pai.

Estávamos na cabeça da Camila, quando a pediatra, Dra. Mariana, me olhou esquecido no fim da sala de parto, e me disse quase sussurrando: "venha aqui deste lado", chamando para ir aos pés da Preta.

Parti para o lado oposto, tentando que ninguém notasse a minha presença. E ninguém notou. Quando cheguei do lado da doutora, sempre encostado na parede, ela fez um sinal para a máquina de fotografias e comecei a fotografar freneticamente!

E saíu o moleque! Comprido, magro e lindo, mesmo envolto no sangue e no esbranquiçado da placenta! Não chorou logo, mas chorou depois... Contido... Mas que aplacou a aflição de todos da necessidade de chorar!

Doutora Lia, enquanto a Dra. Janete se preocupava com o fim do parto, levou o Pedro, bíblico, na cabeça da mãe para o primeiro beijo e a Preta, em um misto de alegria e preocupação, olhava e chorava com a criança.

De repente a pediatra Mariana recolhe o rebento e sai com pressa e o Pediatra visitante, Altino, sai correndo atrás! 

Bom, tinham dois, um deles avô e médico parteiro. Fiquei com a minha mulher! Ouvi taxativa uma voz de baixo: - "vai com o meu filho!" Ainda argumentei: - Teu pai está lá e vou ficar com você! Ela diz: - "vai agora ver o Pedro!"

Claro que fui! O Pedro estava ótimo! Tudo procedimento normal! Moleque lindo e saudável! Aliás, nunca vi o meu sogro tão feliz, segurando a criança com aquela máscara cirúrgica mal tirada do rosto e fazendo pose para a máquina fotográfica!

E, como disse no primeiro parágrafo, esta crônica é absolutamente impessoal e somente para o aprendizado dos demais pais de primeira viagem... mas meu filho é a criança mais linda do mundo!